A Arte é uma das faces do Amor, ou então ainda não sabemos o que é...
(Alma Welt)Este espaço é reservado aos pensamentos enunciados pela grande poetisa gaúcha Alma Welt (1972-2007) de maneira direta, em prosa, conquanto seu pensamento profundo e de cunho filosófico permeie toda a sua obra artística.
Retrato autorizado de Alma Welt
Retrato autorizado de Alma Welt- desenho de Guilherme de Faria, 2001
quinta-feira, 1 de junho de 2023
Por conta do Destino, a vida é um enigma nunca desvendado. O mundo é o tabuleiro de um jogo complexo a que nos falta o sentido porque ninguém ganha. Há quem diga que é um jogo de cartas marcadas, já que a última carta é invariavelmente a Morte. Gosto muito das canções que falam disso, embora sempre sinistras. A que mais gosto é a "ária das cartas" de ópera Carmem, de Bizet. Ah! Também a "Canção do Salgueiro" evocada por Desdêmona na ópera Otelo, de Verdi. O Destino e a Morte só devem ser evocados romanticamente, ou se tornam puro Terror.
Não é possível modificar a essência do Mundo. "Não há nada de novo sob o sol", diziam os antigos. A tecnologia muda apenas o verniz... e nos lisonjeia. Quase todos nós nos deixamos seduzir pela tecnologia. E não há nada de mal nisso, comparado aos males da própria essência do mundo. Mas não conseguimos fugir do mal buscando a superfície, o verniz. Como ao ouro, é preciso cavar, é preciso lavá-lo de sua escória, para que brilhe em plenitude. E tudo isso só pode acontecer dentro de nós mesmos, que compomos a essência do mundo.
A tristeza é um rebaixamento vital que a própria vida suporta apenas por curtos períodos. Se não recuperamos logo o tonus vital caímos num limbo difícil de sair como de um pegajoso pântano.Todo mundo já passou por momentos assim e aprendeu alguma coisa. Mas garanto que o coração aprende mais com os momentos de alegria verdadeira, aqueles que despertam gratidão.
sexta-feira, 26 de maio de 2023
Caminhar no mundo entre outros seres humanos e animais não deveria ser visto como simples consequência daquele remoto castigo de Deus, mas como uma oportunidade de observarmos nosso reflexo. Isso não constituiria um reprovável narcisismo, mas um convite ao nosso aperfeiçoamento. Claro, se não nos levar à aquela auto indulgência: "Bah! O ser humano é mau pela própria natureza, somos todos pecadores", somos fruto do "pecado original", ou ainda "O mundo é mal"... Quanto a mim, sempre preferi observar o Bem, a Verdade e a Beleza na humanidade. O Mal é um insidioso ruído de fundo, um chuvisco que desaparece quando sintonizamos o Bem.
Um ser humano qualquer, visto em profundidade e poesia, é tão rico, que podemos basear nele uma saga ou no mínimo um conto de caráter universal. Por essa razão não se espantem de que minha obra inteira, em contos, crônicas, poemas e romances, versem sempre sobre mim e minhas circunstâncias, meus afetos e desafetos. Ainda não esgotei minha própria riqueza.
Emito minhas opiniões sobre quase tudo. Mas o que me absolve é o fato de que não dou conselhos. Entretanto, há quem possa dizer que isso é a definição de covardia ou isenção. Eu diria simplesmente "prudência". Um conselho equivocado ou pouco pertinente destrói mais do que o mal que aflige o aconselhado.
Quase sempre temos alguma culpa, ainda que remota, nas circunstâncias adversas em que vivemos. Aquela famosa pergunta: "Onde foi que eu errei?", procede, e também quase sempre pode se respondida. Mas quando não há mais possibilidade de conserto, ainda resta o auto-perdão, sob pena de uma degradação insidiosa da auto estima...
O escritor, como artista, é aquele capaz de observar a Verdade sobre diversos ângulos simultaneamente, embora só possa descrevê-los linear ou sucessivamente. Isso quer dizer que a Verdade não é uma só? Bem... a Verdade se revela uma só quando sobrepomos as imagens produzidas por pontos de vista ou ângulos diversos. Mas quem está habilitado a isso? (pode alguém perguntar) já que o artista é aquele que produz esses deslocamentos sem declarar o resultado da sobreposição final, reveladora, que somente a Deus cabe fazê-lo. E que ainda nos nega...
sexta-feira, 12 de maio de 2023
Os gregos não estavam simplesmente contando estórias. Nossa trajetória interior corresponde a uma entrada e saída do Labirinto. Devemos lembrar que não se sai do labirinto (pelo nosso fio de Ariadne da consciência vigilante) sem antes enfrentar e matar o nosso Minotauro. Se sairmos antes do duelo fatal deixaremos o Minotauro vivo e daninho para sempre no centro do nosso dédalo anímico. Seríamos para sempre criaturas truncadas ou atormentadas por uma sombra ou um vício. Toda esta estória é para nos lembrarmos que não podemos ser covardes impunemente...