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(Artigo de Alma Welt)
Há semanas, um grande número de brasileiros está vivendo numa espécie de pesadelo insone. Me refiro às pessoas que se sentem particularmente afetadas pelo fenômeno do Mensalão e suas malas abarrotadas de dinheiro. A chave para detecção deste conjunto de sintomas, que poderíamos denominar de Síndrome do Mensalão, para inaugurar uma nova espécie de doença no catálogo psicossomático, nos foi fornecida pelo próprio deputado Roberto Jefferson, uma das estrelas deste show kitsche que a imprensa está impingindo a todos diariamente pelos tirânicos e avassaladores meios de comunicação. Trata-se da frase daquele deputado, dirigida ao seu interlocutor, o deputado José Dirceu num momento de confronto, ou de duelo de titãs na CPI: “O senhor desperta em mim os piores instintos.” Eis aí, a meu ver, a chave de tudo, e do sofrimento psicológico desse grande número vago de brasileiros, a que me referi, diante de outros números maiores e mais estarrecedores: os de milhões em notas visualizáveis ou imagináveis, abarrotando malas itinerantes para rumos determinados, nas mãos de tão poucos.
Uma espécie de chave complementar me foi fornecida ontem pela entrevista ao Jô Soares, do psicanalista Contardo Caligaris, que no seu “gabinete”, teria, por sua vez detectado, ou simplesmente constatado, uma certa ocorrência de uma vaga depressão em clientes, ocasionada pelas notícias insidiosas da CPI. O cruzamento desses dois dados sugestivos me deu a certeza de que estamos diante de uma nascente e perigosa “epidemia de inveja”. Sim, porque, desde que, por princípio os bons sentimentos não causam dor, o sofrimento produzido pelas notícias do Mensalão, só pode derivar de um sentimento nada nobre, que permanece latente como um vírus, dentro de cada ser humano: a INVEJA. Num momento como esse, de baixa da auto-estima política no corpo social do país, equivalente à baixa de resistência num corpo orgânico, o vírus prolifera, ganha força, se instala, produzindo aquela depressão sintomática, até então inominada. Sugiro que a denominemos “Síndrome da Inveja do Mensalão”, pois o brasileiro médio, acredito, diante das imensas dificuldades do dia a dia, da limitadíssima capacidade de “fazer dinheiro”, sem perspectivas de crescimento econômico em sua vida amesquinhada por tantas circunstâncias adversas, não poderia ficar imune a essa espécie de visão corruptora que lhe entra diariamente pelo ouvido: a miragem dos milhões inimaginavelmente fáceis, de notas saindo tentadoras e obscenas pelas frestas de malas, maletas e cuecas, estas últimas sugerindo nitidamente a conotação psico-sexual da síndrome. O que temos, é então, resumindo, simples inveja daqueles que de uma maneira um tanto “mágica”, fazem brotar dinheiro de fontes obscuras, como aquelas da cartola de um prestidigitador de circo, que nos deslumbrava na infância, mas com um pequeno laivo de temor subjacente, diante da subversão das leis da lógica pelo surgimento de inocentes coelhos e pombos.
Só há uma vacina para debelar o que pode se tornar uma epidemia de inveja: a compunção geral diante dos nossos próprios defeitos de caráter, espelhados agora, publicamente, nessa fatia de amostra da triste condição humana: nossos políticos do Congresso, particularmente aqueles atacados da síndrome original, a da Cobiça, da qual contraímos a complementar, produzida talvez pelo mesmo vírus, numa ligeira mutação.
Irmãos, diante da peste oremos, pedindo saúde, isto é, virtudes cívicas, em particular as do desprendimento e da compaixão pelas fraquezas humanas. Depois, se der, punamos, mas sem ódio, que produz recaídas.
31/08/2005
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