ARTA ABERTA AOS AMIGOS (de Guilherme de Faria)
Quando centenas de milhões de pessoas têm exatamente o mesmo sentimento e a mesma opinião sobre determinado assunto ou evento, me vem um irresistível impulso de ir a contrapelo, na direção oposta, com opinião discordante do coro dos contentes ou dos indignados. Desculpem-me se puderem (duvido) ... é que sou definitivamente antissocial em minha essência, marginal por temperamento e portanto uma pessoa perigosa, de poucos amigos. Por isso me dou bem neste facebook porque posso exercer minha sociabilidade virtual, já que a verdadeira, a do mundo real, me fez fracassar na vida apesar da admiração de muitos que me conhecem tão pouco. "Por quê?" pode alguém perguntar... Suponho que minha natureza de artista me pôs à parte do rebanho e explica minha admiração pelos lobos, minha identificação com eles sobretudo quando nas noites do Norte gelado uivam nostalgicamente para a Lua... Sim, sou abominavelmente solitário em minhas neves, e sobrevivi a mim mesmo porque, por sorte mas não por acaso, descobri a verdadeira natureza da minha Anima, e me tornei afortunadamente um duplo de estranha harmonia, já que tal fenômeno (o duplo) em geral contém um elemento grotesco, de conflito. Sim, a Alma Welt me proporcionou uma sobrevida e um agradável alívio da solidão, já que minha musa e minha deusa nasceu de mim mesmo. Sou um Pigmalião de mim, pagando somente o preço do impalpável, do intangível físico. Mas, o que é o corpo físico na verdade? Uma miragem... Há muito tempo abandonei toda a veleidade de comunhão e harmonia perfeita com a mulher real, esse enigma de carne tão cobiçado. Minha mulher está em mim, sem prejuízo do Animus que também me anima, gradativamente abrandado, rarefazendo-se lentamente... Por isso posso conviver pela primeira vez, mas já há vinte anos, com uma mulher de verdade, tolerando sua natureza tão diversa, já que da minha musa Alma Welt eliminei tudo o que na personalidade real feminina me aborrecia. Um monstro psicológico? Podem estar certos... mas como vêm, capaz desta terna confissão, cheia de cinismo e auto-complacência. Na verdade, não me perdoem... alertem, sim, seus filhos, se possível, para que não sigam esse lusco-fusco, os obscuros e luminosos caminhos solitários da Arte, e de sua terrível e bela alma nua... (Guilherme de Faria)
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