Este espaço é reservado aos pensamentos enunciados pela grande poetisa gaúcha Alma Welt (1972-2007) de maneira direta, em prosa, conquanto seu pensamento profundo e de cunho filosófico permeie toda a sua obra artística.
Retrato autorizado de Alma Welt
Retrato autorizado de Alma Welt- desenho de Guilherme de Faria, 2001
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
"Enriquecer a vida", a meu ver significa simplificá-la, livrando-a do entulho dos compromissos inúteis e frívolos, dos encargos da ambição, e certamente do comprometimento com o Sistema. Significa se aproximar do "coração da Vida" , isto é, da Poesia das horas e dos minutos em seu lento e paciente escorrer pelo Tempo Infinito. Significa voltar à Natureza, mas não à sua ferocidade secundária, mas tão somente à sua inocência e paz primordiais. Uma volta ao lar, ao Eden, que tantos de nós demos por perdido..." (Alma Welt)
"O homem do futuro saberá o que é Deus. Ou melhor, ele o conhecerá em si mesmo. Isso se dará num futuro remoto como já ocorreu num passado remotíssimo do qual o homem perdeu a memória. Na verdade, foi para isso que o homem foi criado e experimenta uma evolução cíclica em aparentes avanços e retrocessos... uma evolução em espiral, por assim dizer. Mas a meta é clara desde já: voltar ao seio de Deus. Em si mesmo." (Alma Welt)
"Nos tornamos alvos da maledicência e até do rancor quando atingimos certo grau de visibilidade. Entretanto nada escapa a esses livre-atiradores à procura de alvos móveis, por discretos que sejam. Aliás, é melhor a gente se movimentar livremente como se o mundo não fosse mau e perigoso. É mais um "faz-de-conta" necessário na nossa vida adulta..." (Alma Welt)
"Os alcoólatras possuem três características de personalidade comuns a todos: são mais sensíveis do que a média, mais inteligentes e... extremamente imaturos. São, portanto, defasados emocionalmente. Isso produz uma espécie de tripé manco, que desequilibra o conjunto. Infantis, no que concerne à parte afetiva, estancaram seu crescimento emocional a partir do primeiro gole que tomaram na vida, em geral na adolescência. Tive um cunhado muito querido, que morreu cedo, alcoólatra que tinha estas três características de modo tão patente, que convivendo com ele e observando-o me permiti fazer essa generalização..." (entrevista com Alma Welt)
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
"A Literatura me permitiu viver em todas as épocas da História, século por século. As pessoas que crêm na "verdade da Imaginação" e supremacia do mundo do espírito sobre o da matéria, sabem do que estou falando. Entretanto, contraditoriamente, tenho imenso apego à materia, pois não tenho certeza de que o espírito sobreviva sem ela. Essa dúvida é a causa da minha angústia, e nisso também não estou sozinha: grande parte da humanidade vive essa crise da fé, e mesmo secretamente, muitos "crentes" fervorosos. Somente a ameaça do Nada apavora o Homem, o imenso ego do Homem..." ( Alma Welt)
"A violência é a última fronteira do homem com o animal selvagem que há nele. No amplo território do humano, ela ainda está do lado de cá da cerca, infelizmente. Daí a imensa dificuldade de extirpá-la da nossa sociedade. Não esqueçamos que entre policiais, militares e até em algumas modalidades de esportes ela é estimulada. Os filmes também a louvam abertamente. Por isso mesmo não haverá solução, por mais que os mansos como nós se horrorizem..." (Alma Welt)
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
" O yogue Ramacháraca dizia que havia três categorias do humano em relação ao trabalho. A mais baixa é a dos que trabalham por amor ao dinheiro. Nessa categoria está esmagadora maioria da humanidade. Acima dela está a dos que trabalham por amor ao trabalho. Nessa categoria se inserem também os artistas, que trabalham por amor à Arte... Mas acima de todas, elite espiritual da humanidade, está uma minoria anônima e quase sempre silenciosa: aqueles que trabalham por amor ao próximo... " (Alma Welt)
"De tempos em tempos, não muito espaçados, quadrilhas de bandidos tomam posse dos governos de diversos países, em geral com a conivência da maioria do povo... Isso levaria a questionar se a maior parte da população se constitui de gente alienada ou francamente má... Tenho sérias dúvidas quanto ao caráter das maiorias. O Nazi-facismo, por exemplo, deixou patente essa sombria questão... " (Alma Welt)
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
"Se Paraíso houvesse, deveria ser de acordo com nossa sensibilidade, gostos e preferências... ou não teria sentido. Eu, por exemplo, só apreciaria uma vida post-mortem que fosse uma espécie de peregrinação às Ilhas Bem-Aventuradas, para encontrar-me com os deuses, heróis e semideuses da antigüidade clássica. Também com os artistas da Renascença Italiana..." (Alma Welt)
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
"Quando criança, eu eu já sonhava ser escritora, e esse sonho se misturava à idéia de aventuras, como se só as pudéssemos escrever enquanto estivéssemos vivendo-as. Ao crescer percebi que meu pensamento infantil tinha sentido: só podemos escrever vivendo internamente o que escrevemos, pois toda vivência autêntica é um processo mental..." (Alma Welt)
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
"Somente a Poesia capta a essência do momento, como o melhor fotógrafo de instantâneos. Sem ela a verdadeira vida da humanidade não teria sido registrada. Isso desde os primórdios, da saga do primeiro homem e mulher, segunda grande metáfora poética, pois a primeira é a das "trevas sobre a face do abismo" e "o Espírito de Deus pairava sobre as águas... " (Alma Welt)
"O medo é o sinalizador da consciência de morte que compartilhamos com todos os outros animais. É também uma prova de que a morte é algo ameaçador que vem de fora da vida, uma espécie de aberração monstruosa. Não me venham com consolações ingenuamente otimistas, estou convencida de que a morte é uma falha da Natureza que sempre sonhamos concertar, vencer, superar. Talvez o consigamos num futuro remoto, pois a vocação secreta do ser humano é a imortalidade, aspirantes que somos dos deuses, desde a mais remota antigüidade..." (Alma Welt)
domingo, 2 de outubro de 2011
"Os melhores anos da nossa vida não são necessariamente os da infância, quando éramos desprotegidos de nós mesmos pela nossa ingenuidade fundamental. Entretanto, são anos sagrados porque éramos autênticos em nossa duvidosa inocência e pequenas maldades, como jamais seríamos depois. E teremos sempre que recorrer a ela, a sagrada Infância, para nos reavaliarmos, nos entendermos, absolvermo-nos... " (Alma Welt)
"Concordo que os corruptos devam ser punidos de alguma forma, assim como os maus de qualquer espécie. Entretanto acredito mais na "justiça do Tempo" e na "Lei de Causa e Efeito" das teorias reencarnatórias. Eu mesma não atiraria uma pedrinha sequer no pior deles. Deus me livre de querer ser a "palmatória do mundo". Deixo isso para os indignados e furibundos..." (Alma Welt)
"Podemos utilizar um filtro interno contra as realidades sórdidas do mundo. Isso não representa necessariamente uma alienação, ou "panglosismo". Podemos chamar de "higiene mental" (termo de nossas avós). O importante é não nos deixarmos poluir por tanta sujeira que, essa sim, distorce a realidade. Eu me refiro ao diário noticiário policial, ao econômico-financeiro e até o político. Garanto a vocês que eles não fazem falta para o entendimento do mundo... Já basta a espada de Damocles que pende por um fio sobre as nossas cabeças: a realidade espantosa da morte." ( Alma Welt)
"O poeta verdadeiro não é o que compõe com rigor, escolhendo penosamente as palavras com a maior precisão, labutando o poema como uma construção geométrica de equilíbrio ideal, como quem lapida um diamante. Mas sim aquele que como um pássaro, abre o bico e canta porque não pode deixar de fazê-lo, ou morreria..." (Alma Welt)
"O soneto é um desafio para o poeta moderno, não porque seja especialmente difícil compô-lo com graça e beleza, mas porque sendo um gênero antigo, de poesia metrificada, rimada, e com regras, encontra uma barreira inicial de preconceito por parte de um público maior que imagina que a juventude não moraria ali, ou que é um equivalente em poesia, do canto lírico, da música erudita, do balé clássico...... Quanta honra nos faz quem pensa assim, pois quem ama essas artes é o nosso alvo preferido, nossos leitores eleitos... e os há, felizmente, em abundância ainda hoje. Então, onde está o desafio?- me perguntariam. Justamente em conquistar como aquelas artes, novos e jovens adeptos..." (entrevista com Alma Welt)
"Os gregos antigos eram tão geniais, que criaram o Mito que ainda pode explicar a dicotomia fundamental da natureza humana que oscila entre o bem e o mal, entre a pulsão vital e amorosa e o instinto de destruição, e mesmo o de auto-destruição. Trata-se do duplo Mito de Eros e Thanatos, o instinto amoroso e sexual de Vida, e o impulso de Morte, ou da atração fatal. No nosso séculos XX e XXI, o impulso de morte está relacionado, além das guerras, com a criminalidade, as drogas e o terrorismo. A pobreza não é suficiente para explicar essa pulsão." (Alma Welt)
"Os gregos antigos foram um povo extraordinário, de um vitalismo a toda prova. No entanto, a rigor, em seus tempos chamados "heróicos" foi um povo tribal de guerreiros, ladrões, piratas e predadores de uma ferocidade espantosa. Basta lembrar-nos da Guerra de Tróia, onde foram nitidamente os vilões. Mas em pleno classicismo ainda vemos um Sócrates obrigado a tomar cicuta por suas idéias... um pouco ...mais tarde, Alexandre criando um império a ferro e fogo e muito álcool. Isso me faz lembrar que ainda estamos no mesmo ciclo civilizatório deles, embora passando pela imitação romana. A chamada Era tecnológica, ou das Comunicações não nos fez sair estruturalmente desse ciclo. Ainda pensamos como gregos e romanos." (Alma Welt)
"O longo passado do homem pré-histórico, de muitos milhares de anos como caçador, condicionou a humanidade ao consumo da carne e conseqüentemente à predação e violência. Ainda somos seres primitivos e o seremos enquanto não abandonarmos a carnificina em todas as suas conotações. Entretanto uma nova consciência vem nascendo a esse respeito e podemos vislumbrar para daqui a apenas um milênio e meio o abandono da dieta carnívora e a libertação dos rebanhos e das aves. Queira ou não a vocação do homem é a sua evolução espiritual." (Alma Welt)
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