Retrato autorizado de Alma Welt

Retrato autorizado de Alma Welt
Retrato autorizado de Alma Welt- desenho de Guilherme de Faria, 2001

domingo, 6 de janeiro de 2008

Sobre a crise do mercado de arte (de Alma Welt)

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Nas últimas duas décadas, tanto marchands quanto artistas queixam-se de uma grande crise no mercado de arte no Brasil. Meditando sobre o assunto, eu percebi que o motivo dessa decadência do mercado de artes plásticas se deve ao fato de que a pintura é a última das artes a resistir à industrialização. A peça única é por natureza o oposto do objeto industrial, e por isso sofre uma suspeita por parte dos novos-ricos, amantes das griffes e do objeto industrializado, que esse sim, com a ajuda das campanhas de marketing se constitui no objeto-fetiche da nossa época, aquilo que se convencionou chamar de “objeto de desejo”. A obra de arte por sua natureza artesanal, é considerado, pelo menos do ponto de vista emocional e inconsciente, como um símbolo do improvisado e até do subdesenvolvido. Os artistas que ainda vendem seu trabalho são justamente aqueles que o estereotipam a ponto de “parecerem” produtos industriais , com um mínimo de interferência da mão. Por isso também houve um desaparecimento do mercado de gravura de arte, como a gravura em metal, a litografia e a xilogravura, sendo estas substituídas em nível global (depois de uma passagem de transição pelo “poster” (off-set) pelo giglê, isto é, a “gravura” de computador.

O curioso é que justamente o elemento de atração e admiração da obra de arte: a sua singularidade e unicidade(o objeto que só um poderia deter ) é que o faz agora ser rejeitado, permanecendo num limbo das artes, ao contrário da música que foi tão bem englobada pela indústria, que graças a isso podemos assistir a qualquer grande show em casa e até grandes óperas, em soberbas montagens, em DVD. O cinema, por sua vez, já nasceu como arte industrial.


Por outro lado, a pintura de cavalete só não desapareceu graças à sua reprodutibilidade, como dizia Walter Benjamin. Picasso foi também dos primeiros a apostar nisso quando no começo do século XX deixou suas obras serem fotografadas pelo jovem Skyra, jovem editor que começou pedindo esse favor ao grande mestre, e se tornou grande editor de livros de arte.


Assim, como conclusão, eu diria que há uma espécie de contradição: o mesmo motivo que levou a obra de arte a uma espécie de industrialização pela reprodução, matou o seu poder de sedução, o seu carisma. “Ora”( dizem os novos-ricos, no seu inconsciente), “ela pode ser reproduzida, e nem sequer é industria de verdade... pra que serve?”


O mistério e espiritualidade da verdadeira obra de arte só é detectada ainda hoje pelos últimos sensíveis, que, por definição, são pobres, sem poder aquisitivo. Eles e os artistas estão condenados a morrer de fome. Prevejo (e nisso sou uma pessimista de curto prazo) um triunfo da mediocridade e da banalidade.

No longo prazo, entretanto, a arte sempre encontrará meios e modos de manifestar-se, pois que constitui a própria expressão da alma do mundo.

03/09/2006

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