Este espaço é reservado aos pensamentos enunciados pela grande poetisa gaúcha Alma Welt (1972-2007) de maneira direta, em prosa, conquanto seu pensamento profundo e de cunho filosófico permeie toda a sua obra artística.
Retrato autorizado de Alma Welt
Retrato autorizado de Alma Welt- desenho de Guilherme de Faria, 2001
quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
"Introduzindo-me amorosamente no universo dos clássicos da Literatura, da Pintura e da Música, o Vati (papai) me incentivou a pensar a vida e a própria natureza da Arte. A Mutti não via com bons olhos, não a minha índole sonhadora, mas a meditativa. Ela era cantora, e uma vez me disse: " Preferia, filha, que cantasses mais e pensasses menos..." Mas já era tarde: eu não seria como um pássaro que abre o bico para trinar lindamente, mas em compensação escreveria pensamentos e sonetos rimados e ritmados com a facilidade de uma ave canora... " (entrevista com Alma Welt)
"Quando acontece a um artista a consciência clara ou não de sua morte, por assim dizer, "anunciada", em geral esse artista diante da tragédia da revelação semiconsciente, se alça quase sempre à genialidade nas suas performances. Como exemplo cito os últimos tempos de Mozart, Chopin, Edith Piaf, Cazuza e Cassia Heller..." (Alma Welt)
"A obra de arte transcende o âmbito do psicológico no artista. É, portanto, um equívoco tentar ver na obra a personalidade e as circunstâncias existenciais do artista, a longo prazo ou no momento de sua criação. A personalidade, sim, confere um estilo ao artista, mas tão transfigurada que seria uma temeridade decifrar pelo resultado o artista, sem outros conhecimentos de sua biografia..." (Alma Welt)
"A realização interior que o artista logra desfrutar com a conclusão de uma obra bem sucedida é tão grande que justifica todo o sofrimento que acompanha a sua gênese. Sim, como um parto... como comumente se diz. Como uma recém-parida, o artista aconchega e lambe a sua cria. E ele logo a encaminhará para o mundo, por esse mesmo orgulho..." (Alma Welt)
"Grande parte da energia dos artistas é gasta num combate surdo e constante contra a angústia. Há quem diga, que pelo contrário, dessa luta é que se origina a própria obra de arte. O certo é que observando as obras, quaisquer que elas sejam, pictóricas, musicais ou literárias, quase sempre julgo ouvir e ver nelas os ecos ou os respingos dessa batalha..." (Alma Welt)
"És muito apegada ao Pampa, à tua estância, ao teu casarão, teu jardim e teu pomar, pois não? Me perguntam. Sim, sou, como coisas amadas, como cenário e mesmo matéria de minha poesia. Mas imagino que se vivesse num kitchnete na cidade grande, este seria para mim o universo, e viajaria o mundo à roda do meu quarto..." (entrevista com Alma Welt)
"Quando somos tomados pela Arte, já não nos importam, realmente, as coisas materiais afora os nossos sagrados instrumentos. Quero dizer instrumentos mesmo: para o violinista o violino, para o pintor suas tintas, seus pincéis e suas telas; para o bailarino o seu corpo, para o escritor o seu cérebro, sua mente e sua memória. Afora isso, os bens materiais vão ficando supérfluos embora possam revelar sua poesia vez por outra..." (Alma Welt)
Graças a Deus existem seres humanos inteligentes, por incrível que pareça. Eles são uma minoria em cada sociedade, mas influentes. Infelizmente têm que trabalhar na sombra ou serão mortos. A burrice, a maldade e a inveja conspiram constantemente contra eles. Não por serem simplesmente inteligentes, mas por terem o perigoso Amor dentro de si..." (Alma Welt)
"Nenhuma arte pode ser exercida superiormente sem o Amor. Mas repare, o Amor não é plataforma, um palco ou uma inspiração. O Amor é o componente fundamental de toda arte. Sem ele, nem sequer há o artista. Mas, vejam, não me refiro à paixão por alguém ou pela própria arte, mas a um amor universal, por tudo, tão grande que necessita expressar-se..." (Alma Welt)
"Uma vez me perguntaram por qual razão eu escrevi tantos sonetos do ciclo Dança Macabra, dentro de uma tradição gótica, e tão sinistros. Então, eu mesma me fazendo também essa pergunta, descobri que eles de algum modo me consolam com sua idéia de uma morte habitada mesmo que por espectros, e afinal uma vida post-mortem ainda que macabra e grotesca. Sim, porque não posso suportar a perspectiva desumana da aniquilação total do Ego, o pavoroso abismo do Nada..." (entrevista com Alma Welt)
"O amor pela poesia e pela música, ou pela artes em geral, é suficiente para dar sentido à vida e até à morte. Podemos viver mas também morrer por uma arte. A propósito, quando tenho medo, sempre me vem à memória as famosas últimas palavras do grande Corot no leito de morte: "Espero que no Céu haja pintura! " (entrevista com Alma Welt)
"O ser humano pode viver com muito pouco materialmente, mas não pode viver sem amor, que sem este, sim, se torna miserável. E há muita miséria neste mundo devido menos à carência e mais à má distribuição do amor. Por incrível que pareça há muitos acumuladores egoístas desse bem imaterial." (Alma Welt)
"A decadência, as mazelas e doenças da velhice nos preparam lenta e gradativamente para a morte. Por isso é sempre trágico morrer cedo, despreparado e com sêde de vida. Bem... estou falando coisas óbvias. Ainda não penetrei no sentido da vida e da morte. Sou uma perplexa, como a maioria..." (entrevista com Alma Welt)
"Sejamos dignos do claro mistério da vida. Não o confundamos com o nebuloso e o obscuro. Saudemos a névoa luminosa da manhã que recebe o sol com alegria e humildade. À tarde, ao seu final, teremos o melancólico e belo crepúsculo, e à noite as coruscantes estrelas. Estamos cercados pela beleza de Deus! Quê nos importa o obscurantismo do Mal?" (Alma Welt)
"Quanto aos estudos dos egiptólogos, estes são também tão tendenciosos e equivocados que insistem em atribuir a construção das pirâmides à teoria impossível do trabalho escravo de cortar pedras duras com talhadeiras de cobre mole, e arrastar blocos de 50 toneladas por 700 kilômetros pelo deserto, quando os egípicios, que não era burros assim, tinham inventado a fórmula da pedra artificial misturan...do lodo do fundo do Nilo com areia do deserto e o natrão (dos lagos de natrão, aqueles dos flamingos) As pedras eram moldadas com tábuas, bloco por bloco no local, erigindo as pirâmides totalmente moldadas, como uma espécie de cimento armado. Teoria provada pelo arqueólogo e químico Joseph Davidovits que encontrou até a fórmula das pedras das pirâmides numa inscrição hieroglífica e a fotografou e divulgou. Os arqueólogos de gabinete não levam em conta a teoria de Davidovits porque ela joga por terra 300 anos de egiptologia oficial..." (entrevista com Alma Welt)
"A influência, a sugestão e o proselitismo são comuns entre os seres humanos. Mas a verdadeira concordância é rara. Creio que isso é devido à natureza individualista do humano, que se sobrepõe à sua sociabilidade, para o bem e para o mal. O homem realmente é um lobo, como diziam os romanos, e tem como aquele animal o duplo impulso, contraditório, de solidão e de alcatéia." (Alma Welt)
"Creio que malgrado o esforço de historiadores dedicados, 90% do conteúdo da História Universal é mentiroso ou equivocado. A História necessita ser constantemente revista conforme a adaptação da humanidade ao conceito de verdade histórica, que implica o despojamento de nacionalismos exarcerbados e o abandono de preconceitos arraigados. Por exemplo, ainda não chegou à mente do homem comum, supostamente educado, o fato de que o Egito antigo foi uma maravilhosa civilização negra." (Alma Welt)
"Engana-se quem pensa que a angústia do artista provém de sua arte. Essa angústia provém do viver. Se derivasse de sua arte seria paralisadora e não dinâmica. O artista cria para exorcizar uma angústia que seria mortal. Como vivem, então, os que não criam? Boa pergunta. Creio que que vivem numa espécie de torpor social, a menos que se apaixonem e amem muito, que estas são uma forma de arte acessível a quase todos." (Alma Welt)
"Toda verdadeira obra de arte é vagamente anti-social, na medida em que o social é uma tendência normativa e igualizante no pior sentido. O artista que procura deliberadamente ser uma peça da sociedade trai, sem perceber, a própria essência da Arte. Toda grande Arte é solitária, anárquica, rebelde, heróica e até mesmo trágica. Mesmo quando lança mão do humor, este mesmo outra criação genial da humanidade..." (Alma Welt)
"O artista não deve esperar apoio algum na vida, e precisa abrir o seu caminho contra tudo e contra todos. Como o Barão de Münchausen deve alçar-se sobre a areia movediça puxando-se pelos próprios cabelos, com cavalo e tudo. Se algum apoio vier será bem vindo e ele será grato. Mas não conte com isso ou se tornará um resmungão... " (entrevista com Alma Welt)
" A beleza nas mulheres é freqüentemente uma armadilha para elas mesmas. Mulheres belas facilmente se convencem de que isso basta. E aí começa o reino da futilidade... Por isso as excessões são duplamente honrosas. A propósito, "aimer des femmes intelligentes" não é, ao contrário do que escreveu Rimbaud, "un affair de pédéraste", mas sim de homens igualmente inteligentes." (entrevista com Alma Welt)
segunda-feira, 20 de janeiro de 2014
"Quando passamos a discernir o timbre e o tom poético da existência, nas pessoas, nas coisas, na Natureza e até mesmo na sociedade humana, descobrimos um sentido não racionalizável, mas mais profundo em estar vivos. E um amor maior pela vida, a despeito do seu aparente nonsense, o absurdo vital que desafia a própria razão humana..." (Alma Welt)
"A capacidade de amar o belo, o profundo e o humano, nos salva da amargura, do derrotismo e da desilusão. Estes últimos, quando vencem, nos conduzem a uma morte prematura. Poderia resumir com: amar verdadeiramente qualquer coisa viva. Só o amor nos salva do nosso instinto de morte. Eros e Thanatos: os gregos já sabiam disso..." (Alma Welt)
"Ninguém é livre para escolher o Mal. Se o fizeres, mais cedo ou mais tarde terás que prestar contas e serás punido como uma criança rebelde, ainda que o seja somente pela tua consciência. Vejam que vidas miseráveis vivem os maus! Não me parece nada inteligente escolher a maldade e o crime. Há sempre uma ligeira debilidade mental em todo criminoso, reparem..." (Alma Welt)
"Ser artista é uma profissão, sim, é fato. Mas quando o artista faz dela uma missão, um apostolado, sua arte transcende o mero profissionalismo. Mais ou menos como acontece com certos médicos e enfermeiros de dedicação suprema. Alguns artistas, nesse sentido atingiram uma espécie de santidade leiga. É quando a remuneração já não importa, a própria sobrevivência material já não estará em primeiro plano. O artista, a essa altura, pode morrer de fome, literalmente. Lutará, sim, pela sobrevivência, mas sem jamais abandonar a sua arte..." (entrevista com Alma Welt)
"Um artista autêntico não suporta críticas. Espera aplausos e elogios... ou nada. Um artista que apreciasse uma crítica adversa não seria um artista (nunca houve) mas um inseguro, alguém que estivesse perguntando: 'É bom isso que eu fiz?" Impensável tais palavras na boca de um verdadeiro artista. Como um cirurgião na mesa de operações, ele tem que ter absoluta confiança no "seu taco". Ou então não se estabeleça." (entrevista com Alma Welt)
"No verdadeiro artista a ambigüidade está sempre presente: é um sonhador ao mesmo tempo que um realista. É capaz de grandes vôos com os pés bem plantados na terra. Pragmático no reino das idéias e delirante no reino puro da alma. Um coração terno capaz de grandes crueldades intelectuais. Uma sensibilidade à flor da pele, inimiga das pieguices... Tal é o artista: fluido, não captável com uma só mão..." (Alma Welt)
"A vida de uma pessoa é uma atuação teatral, amadora ou profissional, canhestra ou brilhante. Alguns recebem palmas ao longo da vida, outros um silêncio constrangedor, quando não vaias. A cortina fecha a cena final. Alguns atores mais populares têm o camarim cheio de flores enquanto tiram a maquiagem. Tenha sido uma comédia ou uma tragédia, todos morremos no final da peça." (Alma Welt)
terça-feira, 7 de janeiro de 2014
"Engana-se quem pensa que o artista precisa estar triste para fazer obras sombrias, ou feliz para pintar obras alegres e luminosas. O artista freqüentemente as faz mesmo nos estados de espírito contrários. Aliás, não é bem assim... O estado de criação é um estado único, misto de prazer e concentração..." (Alma Welt)
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
"O bom artista conserva sempre em sua mente a perspectiva histórica. Se não souber como se pintava, se pensava ou se escrevia em cada um dos séculos passados, será um artista superficial e nem mesmo original. Se estou dizendo que é preciso ser culto? Sim, se não fores um primitivo genial, sim, é preciso ter cultura..." (Alma Welt)
sexta-feira, 3 de janeiro de 2014
"Nunca pensei em ser original. Sim, sou um tanto subserviente à grande tradição. Não sou uma poetisa de cultura mas "da cultura". Tenho consciência de que minha poesia é um tributo à literatura clássica. Entretanto bebo da água da fonte da vida, e por isso não sou letra morta.." (entrevista com Alma Welt)
"Somos harmoniosos quando a nossa mente está em sintonia com nossa máquina biológica, isto é, nosso corpo físico. Todo mundo sabe disso. Entretanto essa não é uma meta perseguida pela maioria devido à disciplina que ela exige. Por isso seria maravilhoso o ensino da Euritimia (criação do Dr Rudolf Steiner) às crianças desde tenra idade." (Alma Welt)
" Felicidade? Dei-me conta de que nunca procurei a felicidade, somente a arte e a beleza. Mas isso porque ela já estava em mim o quanto eu achava possível. Eu tinha consciência dos meus privilégios de nascença, tendo nascido de uma família como a minha e crescendo no cenário deslumbrante do Pampa, com os mais belos poentes do mundo. Mas devo confessar que minha própria beleza talvez seja a maior responsável por essa felicidade, pois eu tinha uma irmã que não a possuía, e eu via como ela sofria por isso..." (entrevista com Alma Welt)
"Quando eu era muito jovem, numa brincadeira de salão, instada a fazer com palavras uma alegoria da vida, só me veio à mente um barco furado, fazendo água, em alto mar, que estamos buscando ansiosamente esvaziar com nossas mãos, um balde ou um chapéu, sempre com a praia à vista, mas muito longe. Minha alegoria causou imediatamente protestos dos amigos, taxada de intolerável pessimismo. Agora, passados muitos anos, me parece que minha alegoria não representa necessariamente um derrotismo, mas nossa invencível esperança..." (entrevista com Alma Welt)
"Se te queres refugiar do mundo não escolhas a arte, e muito menos a literatura e a poesia. Se tiveres talento e o quê dizer, elas te colocam na encruzilhada dos olhares e das opiniões. Então, quando saires para o mundo, fores à praça, estejas bem armado, se possível. E cubra teus calcanhares..." (Alma Welt)
"A meu ver, um homem rico só é interessante se tiver cultura, refinamento, bom-gosto e construir uma mansão belíssima e a encher de livros raros e obras de arte que saiba desfrutar, e depois doá-las para um museu, ou mesmo construir tal museu e biblioteca públicos. Um estereótipo? Pode ser, mas sem isso, o rico é um bobo pretensioso e inútil, um camelo sem agulha..." (entrevista com Alma Welt)
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