Este espaço é reservado aos pensamentos enunciados pela grande poetisa gaúcha Alma Welt (1972-2007) de maneira direta, em prosa, conquanto seu pensamento profundo e de cunho filosófico permeie toda a sua obra artística.
Retrato autorizado de Alma Welt
Retrato autorizado de Alma Welt- desenho de Guilherme de Faria, 2001
sábado, 19 de outubro de 2013
"Não me venham dizer que "o ciume é o tempêro do amor". O ciúme é constituído pela mistura nefasta de três elementos mesquinhos: a insegurança, a possessividade e a vaidade. Não há nada nele que o recomende. Estou persuadida de que o ciúme é uma decorrência natural, sim, mas das naturezas medíocres..." (Alma Welt)
"Lembro-me que meu pai, médico, cientista, costumava comparar a humanidade, ou a sociedade humana e suas guerras, com as placas de cultivo de bactérias em laboratório e o comportamento delas ao produzir antibióticos uma contra a outra, quando duas culturas de espécies diferentes eram colocadas confluentes na mesma placa. Tratava-se, dizia ele, de disputa por "espaço vital". Ele queria dizer que a ...guerra era um processo natural de equilíbrio demográfico entre as espécies na natureza. Me lembro também que tais exemplos me impressionavam e convenciam, mas me deixavam perturbada. Esses dados reais, científicos, reduziam nossa humanidade à nossa natureza biológica e faltava, por exemplo, o mistério sublime de um Bach, de um Beethoven, de um Mozart, de um Chopin, ou do violino virtuose de um Yehudi Menouhim ou um Sacha Heifetz, do piano de um Arthur Rubinstein, que ele punha no toca-discos. Demorei para harmonizar dentro de mim estes dois conceitos, o da animalidade e o da espiritualidade, que na verdade, juntos constituem o mistério da natureza humana. Mas, com o tempo, percebi que a arte nasce justamente dessa aceitação, de uma imensa e universal aceitação, e raramente de uma indignação moral..." (Alma Welt)
"Muitos notáveis pensadores parecem ter apreciado a guerra e escrito sobre ela, não para deplorá-la mas para louvar a sua estética ou o valor guerreiro em si. Desde a Epopéia de Gilgamesh, passando pelo Bagavad Gita e por Homero, as sagas a têm como tema e valor básico. O próprio Leonardo da Vinci parece ter sido seu admirador, a julgar por suas invenções de máquinas de guerra, e o magnífico esboç...o da Batalha de Anghiari. A despeito de seu horror e bestialidade a guerra continua em pauta nos dias de hoje. Talvez o ser humano não a supere nunca, dado que ela é uma decorrência de um instinto agressivo e predador de nossa natureza. Entretanto, como os nossos dentes caninos estão em franco processo de atrofia, resta uma esperança de paz para Humanidade, para daqui, digamos, uns cem mil anos." (Alma Welt)
"O crescimento estatístico avassalador do uso de drogas e de álcool na nossa sociedade, atesta o fato de que as pessoas não estão mais suportando a vida a seco, isto é, em abstinência. Sobriedade se tornou um conceito estranho para os jovens, pelo menos nos fins de semana. Mas se pensarmos bem, esse fato é muito antigo, se lembrarmos as orgias báquicas ou dionisíacas da Grécia ou as Saturnálias dos romanos... Acontece que, como catarse, o porre naquela época se justificava. Hoje em dia, sem os deuses, a embriaguês é vazia e francamente idiota." (Alma Welt)
"No filme La Voce de La Luna, de Federico Fellini, há uma cena em que um lunático tendo encontrado a lua pousada num campo próximo de sua aldeia, uma comissão de poderosos logo começa a tomar posse burocrática dela frente ao público alvoroçado. Alguém pergunta: "Mas, qual o sentido de tudo isso? Qual é o mistério da Vida e da Morte?" E um bispo, na comissão responde: "Meu filho, não há mais mistério da Vida ...e da Morte. A Igreja já tem todas as respostas". Então um homem, desesperado, rindo e chorando saca um revolver e começa a dar tiros a esmo, gritando: "Mas quê respostas? Não sabem nada! Não sabemos nada!" E esse homem é dominado com violência pela policia, atirado ao chão e desarmado. Eis aí, numa simples cena, toda uma alegoria da civilização humana." (Alma Welt)
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