Este espaço é reservado aos pensamentos enunciados pela grande poetisa gaúcha Alma Welt (1972-2007) de maneira direta, em prosa, conquanto seu pensamento profundo e de cunho filosófico permeie toda a sua obra artística.
Retrato autorizado de Alma Welt
Retrato autorizado de Alma Welt- desenho de Guilherme de Faria, 2001
quinta-feira, 28 de novembro de 2013
"A Humanidade balança entre o pragmatismo dos interesses materiais e a gratuidade da Arte. Nosso pragmatismo tenta destruir essa gratuidade atribuindo-lhe valor monetário, corrompendo-a na sua imensa inocência. Felizmente não logramos poluir a fonte na nascente, que esta brota sempre pura, cristalina..." (Alma Welt)
"O que produziu a evolução da História do homem a partir da civilização foram as correntes de opinião e as modas, instáveis como os ventos. Também pensamentos poderosos de alguns gênios e a reação a eles. Suas descobertas teóricas ou práticas produzem guinadas e correções de rumo da Humanidade. Correções, disse eu? Talvez não... mudanças caprichosas como os ventos..." (Alma Welt)
"A vaidade é sempre um tanto ridícula. Entretanto temo que ela se acabe com a morte e não possamos nos envaidecer mais com nossos leitores e admiradores do futuro e nem acompanhar o crescimento das árvores que plantamos. Como é ambiciosa, a nossa vaidade! Ela usurpa o terreno da Morte!..." (Alma Welt)
"Se tudo é vaidade, como diz o Eclesiastes, então não podemos fugir dela, seria ela, a Vaidade, a essência do humano. Por um lado isso nos absolve, não está na conta dos Pecados Capitais, embora haja a suspeita de que essa senhorita seja filha natural do Orgulho, e a ele se assemelhe. Mas a Vaidade cria a cauda do pavão, e entre os homens, belas performances e obras de arte, embora, promíscua, possa dar a luz a um filho bastardo: o ridículo... " (Alma Welt)
"Durante a nossa curta existência não conseguimos com o pensamento abarcar a vida com suas contradições e seus mistérios. O estudo da História e da Filosofia nos ajuda até certo ponto. Entretanto, grandes intuitivos podem captar todos os aspectos da existência num átimo, numa pincelada. E neste momento, comovida, estou pensando em Van Gogh..." (entrevista com Alma Welt)
"Quando o homem for digno de sua alma começará a Aurora da Humanidade. Suspeitamos que esta aurora já aconteceu há muito tempo, num passado remoto: a Idade de Ouro, a Era dos Heróis. Mas ela pode voltar, porque tudo volta no Círculo eterno das Idades. Esta perspectiva acalentou a minha infância romanesca, e ainda me faz sonhar..." (entrevista com Alma Welt)
quinta-feira, 14 de novembro de 2013
"Nossa vida, enquanto edificação e sonho, é frágil como um castelo de cartas. Coisas como o ódio, a imprudência e a negligência podem fazê-la desmoronar em segundos, e raras são as pessoas que voltam a empilhar cuidadosamente as mesmas cartas. Perde-se a fé nos castelos e nos sonhos..." (entrevista com Alma Welt)
"Todo fumante é um dependente químico e portanto um doente, tal como o alcoólatra e o drogado. O cigarro tem o poder, tal como o álcool, de amortecer a auto-consciência, impedindo o fumante de se perceber como doente. Como o alcóolatra, o fumante lança mão do cinismo até mesmo inteligente, para justificar seu vício. Ele não percebe o escravo lamentável que se tornou. Se houvesse sensatez, os presidentes das grandes companhias fabricantes de cigarros, deveriam ser indiciados como traficantes de drogas. E os nosso governos como cúmplices, formadores de quadrilhas para intoxicar e matar o povo. Cadeia para todos." (Alma Welt)
"Uma vez eu vi e ouvi, na televisão, um jornalista dizendo a um velho índio pele vermelha numa reserva dos Estados Unidos: " Chefe, presumo que vocês, nativos americanos, tenham um grande ressentimento por todo o sofrimento que nós brancos causamos a vocês, por todo o imenso morticínio que lhes causamos." E o índio respondeu: "Não, na verdade não mais. Nós já estamos vingados: nós ensinamos vocês a fumar..." (Alma Welt)
"Meu pai gostava da seguinte máxima simples acima de qualquer outra e a transmitiu a mim e meus irmãos: "Viva e deixe viver." Naturalmente, a observância dessa sabedoria não exclui a necessidade de interferência na vida daqueles que estão vivendo mal. E é aí que começa a complexidade do mundo..." (entrevista com Alma Welt)
"A Natureza é uma afirmação e não uma pergunta. Entretanto ela exige uma resposta, esse é o seu mistério. Ela nos mostra didática e pacientemente os nossos erros. Mas ela se irrita, se revolta vez por outra. Ela sofre, ela está viva. Ó homem! Pensavas estar num mundo abúlico, passivo? Foste idiota por muito tempo. Já é tempo de acordar!" (Alma Welt)
"Perguntaram-me se minto. Não! Sou poeta, e como tal não minto nunca. A poesia é sempre verdade. Vale lembrar o que escreveu Novalis: "A poesia é o autêntico real absoluto. Quanto mais poético mais verdadeiro." Assim, tudo o que falo, escrevo e invento, é a verdade absoluta em que acredito. Quando circunstancial, se o fato ocorreu ou não ocorreu pouco importa..." (entrevista com Alma Welt)
"Um objeto perdido quando se torna objeto de reflexão para fins de saudade ou desapego, não está mais perdido. A matéria se torna espírito. Que mais podemos querer da passagem aparentemente fútil por este mundo? Transformar, transformar tudo em espírito, luz e graça, é a única coisa honrosa a fazer. Com excessão das obras de arte, que por definição plasmam nossa alma... o resto é tralha." (Alma Welt)
"Se te queres refugiar do mundo não escolhas a arte, e muito menos a literatura e a poesia. Se tiveres talento e o quê dizer, elas te colocam na encruzilhada dos olhares e das opiniões. Então, quando saires para o mundo, fores à praça, estejas bem armado, se possível. E cubra teus calcanhares..." (Alma Welt)
"A meu ver, um homem rico só é interessante se tiver cultura, refinamento, bom-gosto e construir uma mansão belíssima e a encher de livros raros e obras de arte que saiba desfrutar, e depois doá-las para um museu, ou mesmo construir tal museu e biblioteca públicos. Um estereótipo? Pode ser, mas sem isso, o rico é um bobo pretensioso e inútil, um camelo sem agulha..." (entrevista com Alma Welt)
sábado, 19 de outubro de 2013
"Não me venham dizer que "o ciume é o tempêro do amor". O ciúme é constituído pela mistura nefasta de três elementos mesquinhos: a insegurança, a possessividade e a vaidade. Não há nada nele que o recomende. Estou persuadida de que o ciúme é uma decorrência natural, sim, mas das naturezas medíocres..." (Alma Welt)
"Lembro-me que meu pai, médico, cientista, costumava comparar a humanidade, ou a sociedade humana e suas guerras, com as placas de cultivo de bactérias em laboratório e o comportamento delas ao produzir antibióticos uma contra a outra, quando duas culturas de espécies diferentes eram colocadas confluentes na mesma placa. Tratava-se, dizia ele, de disputa por "espaço vital". Ele queria dizer que a ...guerra era um processo natural de equilíbrio demográfico entre as espécies na natureza. Me lembro também que tais exemplos me impressionavam e convenciam, mas me deixavam perturbada. Esses dados reais, científicos, reduziam nossa humanidade à nossa natureza biológica e faltava, por exemplo, o mistério sublime de um Bach, de um Beethoven, de um Mozart, de um Chopin, ou do violino virtuose de um Yehudi Menouhim ou um Sacha Heifetz, do piano de um Arthur Rubinstein, que ele punha no toca-discos. Demorei para harmonizar dentro de mim estes dois conceitos, o da animalidade e o da espiritualidade, que na verdade, juntos constituem o mistério da natureza humana. Mas, com o tempo, percebi que a arte nasce justamente dessa aceitação, de uma imensa e universal aceitação, e raramente de uma indignação moral..." (Alma Welt)
"Muitos notáveis pensadores parecem ter apreciado a guerra e escrito sobre ela, não para deplorá-la mas para louvar a sua estética ou o valor guerreiro em si. Desde a Epopéia de Gilgamesh, passando pelo Bagavad Gita e por Homero, as sagas a têm como tema e valor básico. O próprio Leonardo da Vinci parece ter sido seu admirador, a julgar por suas invenções de máquinas de guerra, e o magnífico esboç...o da Batalha de Anghiari. A despeito de seu horror e bestialidade a guerra continua em pauta nos dias de hoje. Talvez o ser humano não a supere nunca, dado que ela é uma decorrência de um instinto agressivo e predador de nossa natureza. Entretanto, como os nossos dentes caninos estão em franco processo de atrofia, resta uma esperança de paz para Humanidade, para daqui, digamos, uns cem mil anos." (Alma Welt)
"O crescimento estatístico avassalador do uso de drogas e de álcool na nossa sociedade, atesta o fato de que as pessoas não estão mais suportando a vida a seco, isto é, em abstinência. Sobriedade se tornou um conceito estranho para os jovens, pelo menos nos fins de semana. Mas se pensarmos bem, esse fato é muito antigo, se lembrarmos as orgias báquicas ou dionisíacas da Grécia ou as Saturnálias dos romanos... Acontece que, como catarse, o porre naquela época se justificava. Hoje em dia, sem os deuses, a embriaguês é vazia e francamente idiota." (Alma Welt)
"No filme La Voce de La Luna, de Federico Fellini, há uma cena em que um lunático tendo encontrado a lua pousada num campo próximo de sua aldeia, uma comissão de poderosos logo começa a tomar posse burocrática dela frente ao público alvoroçado. Alguém pergunta: "Mas, qual o sentido de tudo isso? Qual é o mistério da Vida e da Morte?" E um bispo, na comissão responde: "Meu filho, não há mais mistério da Vida ...e da Morte. A Igreja já tem todas as respostas". Então um homem, desesperado, rindo e chorando saca um revolver e começa a dar tiros a esmo, gritando: "Mas quê respostas? Não sabem nada! Não sabemos nada!" E esse homem é dominado com violência pela policia, atirado ao chão e desarmado. Eis aí, numa simples cena, toda uma alegoria da civilização humana." (Alma Welt)
terça-feira, 24 de setembro de 2013
"A doçura e pureza de uma criança pequena atesta a nossa herança divina. Descendemos dos anjos e a nossa vida é uma longa queda. Alguns de nós conservamos um vestígio de asas e nossa descida é mais suave. Reparem: no último momento todos nós olhamos para cima, buscando condescendência ou aprovação..." (Alma Welt)
segunda-feira, 16 de setembro de 2013
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
"Van Gogh viveu entre os mineiros, mas de carvão e não de ouro. Por isso ele não soube da lição dos que procuram o metal da cor dos girassóis: Se de súbito desanimas e abandonas a parede do longo túnel que cavaste, outro virá depois de ti, e escavando um centímetro encontrará o ouro que tanto procuravas..." (Alma Welt)
"A vida pode ser tanto um Jardim como um problema a ser resolvido. Os filósofos preferem vê-la como um problema, desconfiam dos jardineiros e subestimam as crianças que brincam entre os canteiros. Entre filósofos, poetas e pintores prefiro estes dois últimos, que são mais como as crianças brincalhonas..." (Alma Welt)
"A Morte é um anjo triste que nos acompanha desde sempre à curta distância. Na verdade às vezes sussurra ao nosso ouvido tão baixinho que não distinguimos suas palavras e então pensamos que ela é uma estrangeira, uma desconhecida. Somente no absoluto silêncio da alma conseguimos distinguir suas palavras e seu vulto. E já não nos parecerá tão ameaçadora..." (Alma Welt)
"Quando elogiam minha beleza ou meus dotes, meu prazer parece vir acompanhado de um um vago sentimento de culpa. Tenho vontade de explicar que não é fácil viver dentro de minha pele, tal como se eu fosse muito feia ou despossuida. Porquê isso? É como se os excessivos privilégios com que nasci fossem um pouco obscenos aos meus próprios olhos, como se eu os olhasse com a esquerda de mim..." ( entrevista com Alma Welt)
"Um filósofo em palestra na TV afirmou que, ao contrário dos antigos, não estamos mais sob a égide do Destino, que o homem atual faz a sua trajetória, cria sua própria história. Fiquei estupefacta com tal afirmação. Acredito que tudo é destino, e que só podemos contar com umas brechas para escabrear um pouco..." (entrevista com Alma Welt)
quarta-feira, 14 de agosto de 2013
"Uma vida humana deve ser construída, e com esforço. Viver simplesmente sem planos, metas, sem vocação, nos animalisa no mau sentido. É sobretudo um grande desperdício. Por isso me parece o cúmulo da mediocridade almejar simplesmente um emprego. Aliás, isso, de simples emprego, me parece mais triste que a marginalidade deliberada." (Alma Welt)
"Estou bem ciente da miséria em que vivem bilhões de pessoas neste mundo. Entretanto o que mais me confrange é o Inferno de mesquinharias em que outros tantos milhões de famílias se debatem no dia a dia. O paroxismo das ninharias, da cobiça e do desespero pelo dinheiro em que tantos caem. O materialismo neurótico nos pobres, tal como nos ricos, me confrange... " (Alma Welt)
"Conquanto real e provável a morte para nós pertence ao mundo duvidoso da imaginação. Nada mais cruel do que uma morte anunciada, pois esta subverte o futuro, que deve permanecer desconhecido. O próprio Cristo se apavorou no Getsemani, e este foi talvez o seu momento mental mais doloroso..." (Alma Welt)
"Existe uma parcela assassina dentro da alma humana, maior ou menor, que é mantida abafada, latente ou adormecida na maioria. Naturalmente somos dotados de um mecanismo de controle, uma espécie de comporta que pode falhar, o que é imponderável ou imprevisível mesmo em pessoas aparentemente normais. Por isso não nos apressemos em atirar pedras, mas observemos com atenção se o nosso desejo de vingança não é, ele mesmo, também sanguinário..." (Alma Welt)
"Uma vida dedicada à arte é sempre bela. As dores e as frustrações fazem parte dessa beleza. O patético faz parte... A tragédia, então...exalta o artista até às nuvens. Conhecemos alguns artistas mártires de sua própria arte. Esses são os maiores e a humanidade lhes rende grandes homenagens. Não há cinismo ou hipocrisia nesses louvores póstumos. Como com os santos... "Queimamos uma santa!"- exclamou um prelado sobre as cinzas ainda quentes de Joana D'Arc. "Matamos um gênio!" - devemos dizer do pobre Vincent..." (Alma Welt)
"Na duvidosa política do Pão e Circo, inventada pelos imperadores romanos (Panis et Circences) e vigente até hoje com os nossos espúrios governos, o mais doloroso é que o Pão fica relegado ou excluído. Imensas verbas vão para os "Circences", isto é, o futebol e seus Coliseus. Creio que é porque o Panis desenvolve de algum modo a inteligência, enquanto o Circences a entorpece..." (Alma Welt)
"Quando compreendemos profundamente o sentido de nossas experiências pessoais de vida, elas se tornam universais. Podemos transmiti-las através de alguma forma de arte a começar pela narrativa. Se não fores capaz de expressá-las em arte e com arte, é melhor não fazê-lo: ainda não são universais..." (Alma Welt)
"Se lograrmos comprender subitamente alguma coisa em sua profundidade absoluta, entendemos numa fração de segundo e simultaneamente, todas as outras coisas do Universo. Creio que isso é o Zen. É um fenômeno tão rápido e evanecente, que sequer o atribuimos à consciência. Borges o chamou de "Aleph"..." (Alma Welt)
terça-feira, 16 de julho de 2013
"O que é a felicidade? Creio que é voltar por instantes ao estado "edênico", isto é: como nos sentíamos no Paraíso Terrestre, em absoluta comunhão com a Natureza, - Mas o que é isso, Alma? - me perguntam.- "Então acreditas nessa balela bíblica?" Eu (respondo) creio na força e realidade espiritual dos arquétipos. Eles são a primeira e a última explicação para tudo." (Alma Welt)
"O que é o artista? O que é o escritor, o poeta? Creio que é o ser que ao emitir seus pensamentos e impressões sobre o mundo e as pessoas, o faz num "modo universal", com que todos podem se identificar. Trata-se do "como" ele se expressa. Em última análise é uma questão de estilo, mais do que de assunto. É preciso que o artista se expresse com interesse, imaginação, capacidade de observação, beleza ou crueza, precisão, clareza ou mistério, profundidade, e sobretudo originalidade e estilo próprio. Portanto, escrever de modo legível e interessante para um grande número de pessoas é um dom como cantar bem, com bela voz ou roufenha, mas afinado..." (Alma Welt)
"Conheci um psicólogo que dizia: "Não se brinca com o inconsciente." Entendi que não se tratava do jeito que nós artistas o fazemos o tempo todo. Ele queria alertar para tomarmos cuidado com a violência, crueldade, ou "auto-armadilhas" que moram no nosso inconsciente e podem extravasar a qualquer momento..." (Alma Welt).
“O mundo e a vida, por seu mistério cambiante necessitam de constante reinterpretação. Os artistas, músicos, cantores, dramaturgos, atores, poetas, dançarinos, pintores, cineastas, humoristas, etc, se encarregam incansavelmente dessa tarefa infindável, como a de fixar um caleidoscópio...” (Alma Welt)
"Quando eu era adolescente, costumava ficar tão confusa por não saber bem quem eu era, que chegava a ficar calada por uma semana, no mínimo, esperando que minha identidade voltasse. Minha família pensava que eu estava triste ou deprimida. Mas nunca fui muito de tristeza, não. Sou é muito perplexa!..." (entrevista com Alma Welt)
quinta-feira, 11 de julho de 2013
"O bom escritor é um artista, e como tal não subestima o mundo em que vive. Quero dizer: não crê ser um farol cercado por um mundo de trevas. Sabe que cada pessoa é um mundo em si mesma, e o que menos lhes falta é inteligência e interesse, embora o traço comum seja a dor e a perplexidade diante do mistério da morte..." (Alma Welt)
"Que enorme autoridade moral e estética nos confere nosso leitor por uns minutos! Nesse tempo, ainda que exíguo, estamos com a palavra, e melhor: dentro de sua mente. Que diríamos então de um romance? Que imensa responsabilidade, se logramos capturar sua atenção por tanto tempo!..." (entrevista com Alma Welt)
terça-feira, 2 de julho de 2013
Sobre o patético da vida
"Vistas bem de perto, mesmo as mais grandiosas vidas são patéticas. Tal é a condição humana. O simples fato de todos vamos morrer nos nivela numa vala comum. O artista é aquele que nunca esquece disso, por isso privilegia o ato de criar, sobre o de viver..." (Alma Welt)
Sobre os fumantes
"Quando vejo um fumante, vejo um escravo. Mal posso prestar atenção no que ele diz, mesmo se é reconhecido como um pensador, intelectual, filósofo, etc..." (entrevista com Alma Welt)
Sobre o artista como devoto
"O artista é necessariamente um devoto, um homem de fé. Apenas sua devoção está voltada toda para a sua arte. Quando este fervor se torna tão grande, capaz de produzir um milagre, temos a obra..." (Alma Welt)
Sobre nossa imagem e semelhança de Deus
"Acredito piamente que o ser humano foi criado por Deus à sua imagem e semelhança. Basta ver como o homem é violento, brutal, insensível e sanguinário tal como Deus é..." (Alma Welt
Sobre o pensamento consistente
"Um pensamento consistente não significa um pensamento imutável, definitivo, sobre uma experiência de mundo. Tal coisa não existe. Somos fruto da dinâmica do tempo em nossa alma. A única coisa que eterniza qualquer visão é o talento. E isso mal se pode definir..." (Alma Welt)
Sobre o Vaticano e os Bancos
"Na juventude, saber que o Vaticano tinha um banco, só aumentou minha repulsa por essas duas instituições..." (Alma Welt)
Sobre o amor à vida
Meu amor à vida só tem par com o meu horror a ela. Ó deuses, porque me fizestes tão contrária a mim mesma? Acaso pensais que a Poesia me basta? Sim... ela me mantém viva em dor e alegria. Morrerei exausta da intensidade que me destes, pedindo mais, mais vida!" (Alma Welt)
Sobre a futilidade
"O amor? A tristeza? A alegria? O humor? Sempre. A futilidade? Jamais. A futilidade é idiota e não tem graça. A futilidade é o apanágio da mediocridade..." (Alma Welt)
As doze badaladas da meia-noite
“Nada mais sinistro do que as doze badaladas da meia-noite no antigo relógio de pêndulo da sala do velho casarão de nossa estância. Guria, eu ficava acordada aguardando-as na esperança de rever meus fantasmas prediletos: Bento Gonçalves, Netto, Anita e o italiano... E eles me apareciam às vezes, acreditem ou não. Mas também surgiam alguns intrusos que presumo saíam da minha própria sombra. Se esse era um preço difícil de pagar, tudo isso me dava a medida da misteriosa alma humana, que seria a matéria viva da minha poesia...” (entrevista com Alma Welt)
Náufragos de nós mesmos
"Náufragos na ilha de nós mesmos, como Robinson Crusoe cada um de nós tem que refazer a caminhada da Humanidade em sua penosa evolução, lentamente rumo à Luz e à Libertação, sempre recomeçada a cada nascimento. Esse é o destino humano... que não deixa de ser grandioso em sua dor mas também na sua alegria... " (Alma Welt)
Sobre a força da palavra
"A palavra tem a força potencial, adormecida, de uma estrela. Apenas não é instantânea, mas lenta, insidiosa, sub-reptícia. Para o bem ou para o mal. Por isso se disse que “no princípio era o Verbo e esse se fez Luz...” O homem ainda não aprendeu a usá-la na plenitude do seu poder. O melhor uso que se faz dela ainda é a poesia, o canto, e a literatura verdadeiras. Como um belo brinquedo dos deuses nas mãos de crianças...” (Alma Welt
Sobre a nossa travessia do deserto
"Todos nós temos na vida um momento de travessia do deserto e de encontro com o Cujo e sua tentação... Isto aconteceu com o lado humano de Cristo e não o divino..." (Alma Welt)
Sobre a Bíblia
"A Biblia sempre foi para mim um livro sagrado de grande literatura humana, cheia das estórias sórdidas e também sublimes, de caráter universal, assim como o Grande Sertão: Veredas, do Guimarâes Rosa, O Idiota, Crime e Castigo e Os Irmãos Karamázov, de Dostoiévski; O Vermelho e o Negro, de Sthendal, Cem anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marques, por exemplo. Nem mais nem menos..." (Alma Welt)
Sobre os escritores jovens
"Atualmente existem muitos escritores jovens que para serem atuais ou "contemporâneos" chafurdam na lama das ninharias. Não quero estar entre eles. Elitista, torre de marfim... podem me acusar. Mas se eu não acreditasse na transcendência do ser humano, em sua beleza e destino superior, eu preferiria me calar..." (entrevista com Alma Welt)
Sobre as Utopias
Não confundas o otimismo fácil com as Utopias. Estas nascem no coração nobre dos grandes pessimistas..." (Alma Welt)
Sobre os sonhos mortos
"Não abandones completamente teus sonhos mortos. É melhor carregares o cadáver de um sonho do que te tornares estéril. Não foi Cristo que disse: "Se o grão não morrer, ficará infecundo"...? Os sonhos perdidos, caidos no solo árido da realidade, podem renascer se os livrares das ervas daninhas..." (Alma Welt)
Sobre a sinceridade
"A sinceridade é uma virtude quando não fere sensibilidades inocentes. Elas existem? Sim, Cristo disse, talvez com outras palavras: "Não escandalizes as crianças." Mas se dourarmos a pilula não estaremos forjando os fúteis e alienados de amanhã? Eu digo: Deixai as crianças brincarem, rirem e cantarem enquanto podem. Mais tarde, quando cheguem os dias de desencanto, elas poderão se refugiar na memória das horas luminosas..." (Alma Welt)
Sobre lobos e pastores
Lobos, pastores e governos têm algo em comum: gostam muito de carneiros..." (Alma Welt)
quarta-feira, 12 de junho de 2013
segunda-feira, 10 de junho de 2013
"Existem pessoas que mesmo sendo consideradas muito inteligentes não conseguem ver a diferença entre uma mentira ou farsa e um heterônimo literário brilhante. Mas eu ouso afirmar que tais pessoas, de modo geral, não conseguem identificar uma obra de arte desconhecida quando diante de uma de qualquer gênero..." (Alma Welt)
"Uma senhora, desiludida com sua rotina de trabalhos domésticos, desabafou comigo quando a visitei: " A vida é só isso, minha filha: sujar e limpar, sujar e limpar..." Então, a título de consolo, retruquei: "A senhora está certa... a essência, o sentido mesmo da vida, está na transição entre a sujeira e a limpeza." Mas creio que boa senhora, a julgar pelo seu olhar, não me compreendeu e até mesmo me considerou um tanto pedante... " (Alma Welt)
“Existe uma resistência à poesia e à arte nas famílias burguesas, que vem de longe. Mas pensando bem, justifica-se essa prevenção, pois o artista é o ser mais subversivo que existe já que quando ele se instala no ser humano todos os valores convencionais e toda submissão ao Sistema cessam de maneira irreversível. Tal ser, daí por diante ficará à margem da sociedade, visto como uma espécie branda d...e terrorista das idéias e da alma. É claro que o verdadeiro burguês negará possuir tal preconceito, já que aprecia se divertir e freqüentar o teatro e o cinema. Entretanto sua sede de rir com essas coisas o caracteriza, pois pela gargalhada se mantém descomprometido do sentido profundo da vida...” (Alma Welt)
"A consciência de morte é intermitente e irrompe em pequenos surtos de súbita angústia que duram uma fraçao de segundo. Se essa consciência fosse duradoura quedaríamos paralizados, talvez caíssemos fulminados. Tudo leva a crer que nossa mente possui um mecanismo de defesa contra a consciência plena, atributo potencial de uma área do cérebro que entretanto vive entorpecida, numa névoa de sonho..." (Alma Welt)
"Voltaire satirizou os otimistas no seu Candide enquanto Molière para satirizar um pessimista criou um misantropo (Alceste) de uma franqueza desconcertante mas do qual não ficamos inclinados a rir, mas sim a admirar. Creio que é porque o pessimismo é, a longo prazo, mais lúcido e crítico do que o otimismo. E ficamos aliviados quando os seus prognósticos mais sombrios não se concretizam..." (Alma Welt)
"A angústia não é uma característica exclusivamente humana. Observamo-la também nos animais, e não me refiro somente ao lobo uivando para a lua, imagem clássica. A todos nos foi dada a consciência da morte como a verdadeira punição, já que na estranha expulsão permaneceríamos no Paraíso..." (Alma Welt)
sábado, 25 de maio de 2013
"No purgatório, descrito por Dante como prados e bosques sombrios e ermos, mas serenos, lugar de espera milenar, o poeta ali encontrou as almas de Homero, Platão, Sócrates e Aristóteles, como de outros filósofos e até poetas da antiguidade greco-romana. Dante conversa com eles e percebemos que se daria muito bem por ali. Já no Paraíso, onde é guiado pela alma de Beatriz, sua musa beatificada por ele mesmo, por seu amor platônico imortal, ele só avista anjos, que num imenso círculo hierárquico rodeiam uma luz de uma intensidade indescritível. Foi tudo o que ele pôde ver de Deus. A julgar pela visão do Poeta, Deus é um mistério insondável até no Paraíso..." (Alma Welt)
"Façamos de nossa vida um agradável Purgatório em companhia dos sábios. Tenhamos cuidado com os paraísos em vida, pois quase sempre artificiais nos cobram logo seu alto preço. A paixão também, paraíso efêmero, igualmente perigoso, nos faz despenharmo-nos num abismo após o êxtase. Mas essa não podemos evitar, pois é iniciação necessária à própria Sabedoria..." (Alma Welt)
"Se um fumante de muitos anos consegue abandonar o vício, só por isso pode ser considerado um vencedor na vida. Mas isso se atravessar os sintomas extremos da síndrome de abstinência aguda, a seco, isto é, sem substituição, sem lançar mão de expedientes químicos, muletas psicológicas como calmantes ou álcool. Vou lhes contar uma pequena fábula: Dante Alighieri no meio do Inferno, oprimido pela vis...ão de tantos pecados, punições e horriveis demônios torturadores, quis voltar para a porta de entrada. Virgílio, seu guia, então lhe disse: "Do Inferno não se sai pela porta de entrada. Ali estão os covardes para todo o sempre. Você tem que ir em frente!" Então Dante olhando para o último círculo, o fundo do funil, viu Lúcifer, Satã, terrível, barrando a passagem. Mas Dante disse: "Então vamos! " E Virgílio disse: "Já passamos!"- Dante então se viu subitamente do outro lado, onde o funil se abria... e era o Purgatório. E pra quem já viveu no Inferno, o purgatório é um Paraíso..." (Alma Welt)
"O ser humano é um ser que espera. Todos nós estamos sempre esperando alguma coisa, mesmo quando não nos apercebemos disso. Não me refiro aqui à Esperança, essa espera superior, dádiva de Deus, mas à simples expectativa surda e latente de algo desconhecido, desassossego das almas, talvez a Morte, quem sabe, o amor..." (Alma Welt)
"Uma vez meus pais receberam para o almoço um político aqui na estância. Eu era adolescente e recusei-me a sair do quarto e participar daquela hospitalidade. Naturalmente fui punida por minha mãe pela desfeita, tanto mais que ela tinha feito diante da visita loas ao meu talento (que na verdade a desagradava) e beleza. Mas me lembro como me senti bem, com orgulho de mim e sobretudo muito íntegra, no castigo..." (entrevista com Alma Welt)
"Com a idade, isto é, com a maturidade, devemos nos afastar, não do mundo, mas das besteiras do mundo. Quero dizer que devemos nos voltar para os temas relevantes, os ideais, e começar a contribuir para o melhor do homem. Infelizmente a maioria se torna velha, se volta para as suas víceras ou se agarra às futilidades da juventude... " (Alma Welt)
"Gostar de gente, amar o ser humano, é metade dos atributos do Artista. A outra metade está dividida em muitos requisitos: talento, sensibilidade, técnica, amor à própria arte, dedicação, humor, persistência, fé, humildade. E... ah! Capacidade de suportar muito sofrimento com alguma dignidade. - Mas (perguntarão alguns) isso é santidade... e os defeitos? O artista não os tem? - Sim (eu respondo), enquanto ser humano pode tê-los. Mas estou falando do Artista, uma entidade no homem, em qualquer homem ou mulher..." (Alma Welt)
segunda-feira, 13 de maio de 2013
"Meditando bastante sobre o assunto, cheguei à conclusão de que todo artista é necessariamente um tanto ingênuo. É preciso muita pureza e simplicidade de espírito para devotar-se à fantasia, à beleza e ao sonho. Bá! dirão alguns... os artistas captam também a ferocidade do mundo, sua crueldade e feiúra! Sim, respondo, mas sempre no sentido da transcendência, apontando a nossa superação, pelo espírito, das mazelas da humana condição. O espírito está, por definição, na raíz de todas as artes. Quanto à ingenuidade... essa é a virtude dos anjos." (Alma Welt)
terça-feira, 7 de maio de 2013
“A Arte é tão sagrada que nunca deveria ser praticada por diletantismo. Não deveríamos ser condescendentes com os que pensam fazê-la por “hobby”. Isso quer dizer que a Arte exige o profissionalismo? Não necessariamente. O que a Arte exige é entrega absoluta de corpo e alma, missão, apostolado...” (Alma Welt)
"Na Era Digital todos somos de alguma forma rastreados, observados. Adquirimos uma importância que não tínhamos. Chega a ser divertido: há gente comum e banal que se sente como um conspirador por uma frase ou pensamento. Bem... o homem comum, retirado da massa sempre teve mesmo um certo teor de periculosidade. É por isso que os poderes nos querem bem diluídos no caldo, e sabotam toda educação que individualize..." (Alma Welt)
"A vida é uma coisa estranha... Quando pensamos nela em profundidade e com isenção, como se não fosse nossa... vemos que ela é absurda, sem sentido, e até mesmo fútil. Entretanto quando começamos a fazer isso, é porque estamos doentes, e é preciso tomar cuidado com uma possível ruptura. Todo artista tem traços esquizóides na personalidade..." (Alma Welt)
"Todos caminhamos lentamente rumo ao abismo. Alguns caminham mais depressa; a outros apraz cruzá-lo sobre um fio. Mas os que recorrem à saudade criativa ganham tempo, vivem o dobro antes do inevitável fim. Sim, sou uma apologista dessa modalidade de saudade, característica de uma estirpe de artistas..." (entrevista com Alma Welt)
"Se temos alguma influência sobre as pessoas com os nossos textos; se temos acesso a elas através de alguma mídia, devemos certamente usá-la com os melhores propósitos, desinteressadamente. Isso quer dizer que não devemos ser moralistas ou pontificantes, e muito menos piegas... É mais legítimo sermos contundentes, cáusticos e irônicos, se tivermos força e talento para isso." (Alma Welt)
"Não suporto essa hipocrisia do cinema em geral, que bota os casais na cama fazendo sexo ou após mas sempre enrolados em lençóis e meio de lado, forçados. E quando a moça acorda de manhã com o lençol cobrindo os seios pudicamente? Ninguém mais faz sexo dessa maneira desde o século XIX ! Pode ser idiossincrasia minha, mas me dá imediata vontade de abandonar o filme. Para quê essa pudicícia mentirosa e irrealista? Para não parecer pornografia? Então a pornografia existe na cabeça do cineasta que a procura disfarçar! O tabu do nu frontal e dos pêlos púbicos? Mas isso é da cabeça de americano, que estamos importando para o nosso cinema que já foi mais livre e autêntico!..." (entrevista com Alma Welt)
"A rebelião geral dos escravos, tão temida e reprimida pela classe dominante do Brasil do século XVII (da guerra aos quilombos) ao XIX (do abolicionismo não programado), está acontecendo agora. Os excluidos atuais, na verdade descendente daqueles, rebelaram-se e declararam guerra aberta contra a sociedade e o sistema. Uma grande tragédia culminará esse processo num futuro não muito distante..." (Alma Welt)
"O único critério para se escolher um funcionário que lida com o público deveria ser a capacidade de dar amor, desse funcionário. Todas as outras capacidades ou não, são menos importantes. Mas como detectar esse amor, antes? Bem, gostar de gente se percebe logo, na primeira entrevista..." (Alma Welt)
"A grande vantagem de você ser um artista e pensador meio desconhecido e nada popular é que você pode falar tudo, para poucos, naturalmente, sem ninguém se incomodar ou pelo menos sem ser atacado e achincalhado. Mas desde que você evite os terrenos pantanosos da política e da religião, claro. Bem, o anonimato é o ideal dos sábios..." (Alma Welt)
quinta-feira, 18 de abril de 2013
"Engana-se quem pensa que o artista precisa estar triste para fazer obras sombrias, ou feliz para pintar obras alegres e luminosas. O artista freqüentemente as faz mesmo nos estados de espírito contrários. Aliás, não é bem assim... O estado de criação é um estado único, misto de prazer e concentração..." (Alma Welt)
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