Este espaço é reservado aos pensamentos enunciados pela grande poetisa gaúcha Alma Welt (1972-2007) de maneira direta, em prosa, conquanto seu pensamento profundo e de cunho filosófico permeie toda a sua obra artística.
Retrato autorizado de Alma Welt
Retrato autorizado de Alma Welt- desenho de Guilherme de Faria, 2001
sábado, 25 de fevereiro de 2012
Creio que as diferenças culturais entre o Brasil e os Estados Unidos se baseiam fundamentalmente nos nossos respectivos estágios psico-sexuais freudianos. A julgar pelo cinema, é visível a obsessão dos americanos pelo beijo e pelos seios, revelando estarem na chamada "fase oral" da criança. Quanto a nós brasileiros, pela nossa fixação nas nádegas e no ânus, estamos nitidamente na "fase anal". Daí o feriado principal deles ser o Thanksgiving Day ( o Dia de Ação de Graças) onde se fartam de comer peru, e o nosso ser o Carnaval, onde nos fartamos de mostrar a bunda. (Alma Welt)
Victor Hugo dizia que do "ananque das coisas" (Ananke) nasce a estranha dificuldade da vida. Ananke é o princípio (Arché, arquétipo) ou deusa da Necessidade, cujo fuso gira em seus joelhos pela mão das Três Parcas: Láquesis, Cloto e Átropos, respectivamente o Passado, o Presente e o Futuro. Se entendermos isso, entenderemos a concepção que os gregos antigos tinham da vida e destino humanos. Acredito que ainda não apareceu melhor explicação para os imensos obstáculos e azares que se interpõem em nosso caminho, causando decepções, fracassos e frustrações ao longo de nossas vidas. Mas também as nossas surpreendentes vitórias... (Alma Welt)
Acredito que o problema da humanidade atual é que o potencial de violência está dentro de todos nós como reminiscência do antigo predador que fomos em épocas primevas. Uma irrupção desavisada, um momento de cólera pode transformar qualquer de nós no animal feroz que fomos, por necessidade, em longínquos tempos. Biologicamente ainda estamos numa fase de transição, e ainda sonhamos com a clava e a lança como estensão de nosso braço e de nossos dentes... (Alma Welt)
Vocês notaram? A paz é inteligente enquando a guerra é burra. Então toda a jornada da humanidade é uma disputa entre sua lucidez e sua estupidez, sua luz e suas próprias trevas. Durante muito tempo o homem inverteu os méritos dessa luta, celebrando o guerreiro como herói. Agora isso não engana mais ninguém... (Alma Welt)
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
Se desencadeias em ti mesmo uma postura de animosidade contra as falhas dos teus vizinhos, as misérias do mundo ou do ser humano em suas piores características, tornas-te escravo. Já não se passará um dia sem altercações, ofensas, amargura e ódio. Logo cairás na garras da burocracia jurídica, no Inferno dos processos e disputas legais. Em pouco tempo te tornarás um misantropo. Mas sobretudo tua chance de felicidade estará perdida para sempre. Eis que te tornaste um neurótico... (Alma Welt)
A mais nobre função de um comunicador, seja ele poeta, pensador ou artista... é entreter. Distrair, divertir, encantar, comover, refletir, deslumbrar... enfim: servir. Eis a verdadeira função daqueles que tem um dom. Somos alegres ou tristes bobos da corte. Tudo o mais é veleidade e presunção... (Alma Welt)
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
Prezo mais um bom verso do que uma reflexão sem poesia, por mais profunda que possa parecer. Aliás, uma reflexão se não contiver uma pitada de poesia se perde no mar das opiniões e das polêmicas. Reparem: o bom filósofo é sempre também um poeta, mesmo que não o afirme. Não se iludam: todo o segredo está no "como" ele escreve, como o do pintor está no "como" ele pinta... (Alma Welt)
Saudades... conhecemos bem. Nostalgia é mais complicado. Saudades do que aparentemente não vivemos, que sequer conhecemos nesta vida. Tornei-me uma investigadora da minha própria nostalgia e cheguei a conclusões que não posso provar. Valeu a pena? Sim, como uma exploradora de territórios minha alma tornou-se maior... (entrevista com Alma Welt)
sábado, 18 de fevereiro de 2012
A verdade é que a imensa maioria das pessoas vai, como diziam os antigos, de cambulhada, de roldão, levados pela vida sem nenhum ideal ou meta superior. A maioria sobrevive sem sequer gratidão pelo dom da vida. Entretanto devemos lutar pelo seu direito de desperdiçarem suas vidas, pois num mundo em que esse direito fosse vedado não valeria a pena a nenhum de nós viver... (Alma Welt)
Acredito que, se ao alinhavarmos os momentos mais felizes de nossas vidas encontrarmos uma coerência, um fio condutor ou algumas constantes, descobriremos o sentido que nos foi legado, o nosso próprio destino ou a finalidade de nossa existência. Sim, partindo do pressuposto que o compromisso primordial do homem é ser feliz. O compromisso com o nosso Criador... (Alma Welt)
O pensador autêntico é por natureza radical. No mundo das idéias não cabem relatividades, meias tintas. Se afirmas uma coisa não uses o "meio", ou "quase"... Se o conteúdo for extremo, pague o preço das tuas convicções. Os dúbios, os hesitantes, os incertos não são ouvidos no burburinho das individualidades em conflito. Fale alto e bom som. Só não incites à violência e ao mal. Estou falando do pensador benevolente, superior no verdadeiro sentido... Não dos demagogos, candidatos a tiranos. Estou falando do pensador desinteressado, do verdadeiro humanista... (Alma Welt)
Acredito que a Poesia deva ser clara e limpa. Isto não tem nada a haver com teor moral. Clareza quer dizer objetividade de expressão, e limpidez quer dizer despojamento, se possível das viciosas metáforas. A poesia não precisa delas. A Poesia precisa de sinceridade e força. Talvez de rítmo... se quiser ser aliciante como a música. Rima? Apenas um charme dos sedutores... (Alma Welt
Creio que todos nós temos que caminhar numa trilha estreita de equilíbrio e justiça, marginada de ódio de um lado, e de auto-piedade e tristeza de outro. Um passo inseguro nos colocará nessas trilhas paralelas, verdadeiras armadilhas. Ah! Quanta gente estabanada, perdida! Mas não nos distraiamos, atenção na nossa trilha! (Alma Welt)
"Sempre vivi cercada de mistérios, a começar com os da minha própria existência. Naturalmente não os desvendei, ou não seriam mais mistérios. Prefiro deixá-los assim, como a noite a me cobrir com seu manto estelar. Isso quer dizer que não me conheço? Eu não diria tanto... Creio conhecer-me até onde isso é possível. Não somos todos assim?" (entrevista com Alma Welt)
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
O "livre arbítrio" é um fato: assim como podemos escolher viver sob a égide do Bem ou do Mal, também podemos escolher viver em beleza ou em feiúra, em graça ou em desgraça, na grandeza de coração ou na mediocridade. Isso complicou o Mundo, mas fez nascer o maravilhoso conceito de liberdade... (Alma Welt)
O amor com suas implicações sexuais é tão complexo e suas variáveis tão infinitas quanto os poemas, canções e estórias que inspiram. Talvez seja a única coisa que valha mesmo a pena cantar, além da desilusão final e a morte. Afinal, que sabemos nós, seres humanos, além do que podemos sentir na carne? (Alma Welt)
domingo, 12 de fevereiro de 2012
Já se descobriu, já se sabe: a única maneira de combater efetivamente o Mal é promovendo o Bem, disseminando o Bem. A repressão pura e simples resultou apenas em fracasso e mortandade. Como disseminar o Bem sem levantar desconfiança? Como infiltrar o Bem? Através da Arte: da música clássica, da pintura, da dança, da poesia... Já se sabe! (Alma Welt)
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
Não sei se é verdade que a maior arte é filha do sofrimento. As gerações consagram post-mortem e cinicamente valorizam mais a arte dos grandes sofredores: Van Gogh, Gauguin, Modigliani, Frida Kahlo... Na outra ponta os grandes vencedores também são valorizados: Picasso, Braque, Matisse, Chagall, Dalí, Miró... Talvez haja justiça justamente para os extremos. Mas, pensando bem, vemos que no fundo, de um jeito ou de outro, toda grande arte é mesmo fruto do sofrimento humano... (Alma Welt)
Estou convencida de que quase tudo na trajetória de vida de um ser humano se deve a um encadeamento de circunstâncias que os indianos chamam Karma, isto é, a "lei de causa e efeito". Mesmo a paixão pode estar dentro dessa cadeia lógica. Entretanto, a meu ver, isso não constitui um determinismo ou um fatalismo porque existe um elemento impoderável na vida, que chamamos "acaso" e que quase sempre advém dos caprichos de um coração entediado... (Alma Welt)
A verdade é que o ser humano é um animal de manada. A individualidade é o milagre, pois, bem no fundo, até o homem mais comum a possui. Os demagogos têm a habilidade de se dirigir ao homem no que ele é massa, não indivíduo. Se queres escapar ao seu perigoso fascínio não frequentes comícios. (Alma Welt)
Que imenso prazer é escrever! Escrever sobre tudo, sobre todos os sentimentos e coisas, quando se pode fazê-lo com certo domínio da escrita, naturalmente... Pois ela pode fugir ao nosso controle, como tudo na vida. Mas quando isso acontece, que surpresas, que coisas insólitas e fantásticas aparecem, vindas do nosso inconsciente, que, se não é sábio, compensa em humor e bizarria... (Alma Welt)
Que imenso prazer é escrever! Escrever sobre tudo, sobre todos os sentimentos e coisas, quando se pode fazê-lo com certo domínio da escrita, naturalmente... Pois ela pode fugir ao nosso controle, como tudo na vida. Mas quando isso acontece, que surpresas, que coisas insólitas e fantásticas aparecem, vindas do nosso inconsciente, que, se não é sábio, compensa em humor e bizarria... (Alma Welt)
Meu maior prazer é acordar nos belos dias, saudar a manhã e caminhar pela coxilha, depois de ter passado em revista minhas flores no jardim. Alegrias simples, derivadas do amor pela Natureza. Mas, o quê têm as pessoas com isso? Fazer o mesmo, na medida do seu alcance, onde estiverem, é o único conselho, que por não ser de cunho moral, não me envergonha dar... (Alma Welt)
Os tecnólogos afinal estão certos. A única coisa que se pode fazer pela humanidade é amenizar-lhe os desconfortos da vida material. Tudo mais é inútil, uma vez que todos devemos sofrer as dúvidas, o mal-estar existencial, o medo e finalmente a morte. Nada se pode realmente fazer, somente poupar o ser humano de caminhar muito sob o sol carregando pesos... (Alma Welt)
Não há crítica construtiva para o verdadeiro artista. A Arte não é isso. Arte é segurança. Picasso disse: "Eu não procuro. Eu acho." Isso porque o artista é que é o verdadeiro crítico do mundo, e considera os "críticos" uns usurpadores. A grande arte nem pode ser analisada, porque na relação com o expectador ela não é a analisanda, mas o analista. (Alma Welt)
É natural que quem ame e respeite a Arte e a Cultura se desgoste com a decadência cultural que vemos acontecendo no mundo em contradição com o grande e fascinante desenvolvimento tecnológico. Mas podemos fazer a nossa parte, ainda que sejamos poucos, contribuindo para a cultura mesmo que pareça uma causa perdida. O Futuro nos resgatará. (Alma Welt)
O poeta não é um simples manipulador de palavras mais ou menos hábil. Malgrado os desqualificadores e banalizadores de plantão, a verdade é que ser poeta é penetrar no domínio de mistérios e encantos. Não duvidem, o poeta é um bruxo benigno, e participa de um reino onde todas maravilhas são possíveis e todos os tempos se encontram... (Alma Welt)
Todos nós humanos temos que inventar meios de passar o Tempo, talvez de tentar enganá-lo. Os trabalhos, as profissões, apesar de necessários para sobrevivermos, são principalmente uma maneira ingênua de nos justificarmos diante do nosso inconsciente acusador, que exige que "suemos o pão". Por isso sempre tive uma secreta admiração pelas pessoas que não trabalham sem sentir-se culpadas... (Alma Welt)
A maioria do adultos trata os sonhos como se fossem uma espécie de brincadeiras ociosas do inconsciente, algo pueril e inútil no dia a dia laborioso e responsável. Talvez seja mesmo... mas para nos mostrar a inutilidade, esta sim, do mundo adulto, de valores que mal conseguem nos penetrar mais fundo, e que sobrenadam eternamente na camada mais superficial da mente... (Alma Welt)
A atitude adversa de minha mãe, Ana Morgado, a Açoriana; da Matilde minha babá e de Solange, minha irmã mais velha, em relação à minha poesia e mesmo à minha liberdade resultaram estimulantes para mim. Ser poeta representava então um desafio, como deve ser. Do contrário, a facilidade, a aprovação e o aplauso do Vati, meu pai, de Rodo meu irmão e de Lucia minha irmã, e até do meu fiel Galdério, meu charreteiro, e factotum aqui da estância, me teriam amolecido, estragado, mimado. Afinal, eu era a princesa, o que por si só é poesia, não se espera das princesas uma obra profunda. O ser supera o fazer. Pensando assim, agora posso compreender meus primeiros adversários, e não mais duvidar do seu amor. Está tudo certo, minha biografia é perfeita. Mas qual biografia não é, se tudo é Destino?" (Entrevista com Alma Welt)
Eu nunca encontrei ninguém que amasse tanto a Poesia quanto eu. Sei que existem essas pessoas, mas por alguma razão não fizeram parte das minhas relações. Eu sentiria uma grande solidão poética, não fossem meus grandes pares do passado. Bem, talvez eu esteja sendo injusta, na verdade teve o Guilherme de Faria, meu descobridor em São Paulo. Mas suspeito que ele, sendo pintor, me amou primeiramente pela minha beleza, me fazendo posar nua para ele a todo momento. Logo ele que nunca precisou de modelo... (entrevista com Alma Welt)
Por alguma razão, inexplicável, escolhi desde cedo o soneto para confessar-me, contar tudo, registrar meu dia a dia mental e mesmo circunstancial, para sonhar e até para divertir-me. Sei que houveram grandes sonetistas no mundo, e ainda os há... que também usaram o soneto para fins confessionais, que os quatorze versos muito se prestam para isso. Mas duvido que eles se tenham construido através deles como eu, que já não os distingo de mim mesma. Se queimassem minha Arca, eu deixaria de existir. Creio que cairia fulminada, como uma irreversível Fênix... (entrevista com Alma Welt)
Quando eu era guria, minha babá Matilde me dizia que nós morávamos no Fim do Mundo, que aqui o o vento fazia a curva e voltava, que para além do horizonte, lá no fim da coxilha, não havia mais nada. Apesar de aprender Geografia, afetivamente continuei a sentir-me uma espécie de fronteiriça, uma guardião da fronteira do Mundo com o Nada. Sim, eu sempre tive um pé no Abismo, e isso, somente isso, explica a minha poesia... (Alma Welt)
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
Escrever é um ato sagrado feito para entreter os deuses. Se os seres humanos quiserem compartilhar do que escrevemos, devemos deixar. Aliás, é um bom ensaio, um teste mesmo. Os deuses são imortais mas no mais são iguais a nós, o que nos faz rir e chorar a eles também fará. O aplauso dos homens soa aos nossos ouvidos como o aplauso dos deuses... (Alma Welt)
Creio que o escritor ou poeta, como qualquer artista, não deve perder a perspectiva do menestrel, do saltimbanco ou artista de rua: entreter e divertir o público. Pois o que leva alguém a ler, senão a expectativa do prazer? O quê levaria alguém voluntariamente a se aborrecer, a se entediar? Que o escritor assuma sua condição de "enterteiner", de bufão mesmo, se possível de "bobo da corte", para poder insidiosamente introduzir suas sagradas intuições... (Alma Welt)
Os únicos momentos em que estamos no controle é quando estamos lendo um bom livro, assistindo a um grande filme ou escutando uma boa música. Fora disso muito pouco podemos realmente escolher. É injusto, pois, que não relacionemos esses momentos de verdadeira concentração e de imaginação, no cômputo geral de nossas vidas... (Alma Welt)
"Atribuimos ao escritor a missão de desvendar os mistérios do mundo. Espera-se tanto dele a ponto de lhe atribuirmos o papel de investigador do próprio significado da vida. É demasiado... e é prova do nosso desespero. Mas a quem mais podemos recorrer? Algum pode estar iluminado, inspirado (como se diz) e de repente tudo ficará claro para nós! Os sacerdotes há muito cairam em descrédito. Também os líderes políticos. O escritor, o poeta principalmente, é o Xaman da grande tribo urbana... esperamos dele, de repente, grandes revelações. Pobres de nós, perdidos a Leste do Éden!..." (Alma Welt)
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