Este espaço é reservado aos pensamentos enunciados pela grande poetisa gaúcha Alma Welt (1972-2007) de maneira direta, em prosa, conquanto seu pensamento profundo e de cunho filosófico permeie toda a sua obra artística.
Retrato autorizado de Alma Welt
Retrato autorizado de Alma Welt- desenho de Guilherme de Faria, 2001
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
Aqui no meu Pampa o tempo é contínuo, além de infinito. Andei pela coxilha numa passagem de ano, afastei-me do casarão e deitei-me na relva... Tive então a certeza de que o tempo ignora nossa pretensiosa cronologia: lá estavam "as imperecíveis estrelas", como diziam os egípcios antigos. Entretanto me ocorreu que até mesmo as estrelas morrem, como morremos nós no seio eterno do Tempo... (Alma Welt)
O que é a Poesia? Ninguém até hoje conseguiu defini-la em sua essência. Entretanto podemos detectá-la quando ela se nos apresenta. A mim parece que ela ocorre menos nos momentos inefáveis do que no comuns, até mesmo aparentemente prosaicos. Uma coisa é certa: a Poesia é sempre pura, ela quer um certo olhar nosso, desvelador, mas menos por malícia do que por pudor... (Alma Welt)
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
Já repararam? A vida tem uma nítida conotação de desafio... Trata-se, pois, de descobrirmos a quê ela nos desafia. Eu arriscaria dizer que a vida nos desafia a reinventá-la. Sim, cabe a cada um de nós reinventá-la ou estaremos condenados a repetir a vida dos menos criativos, os que seguem as modas, as convenções, os esquemas, as tradições, os preconceitos... Em uma palavra: as "mesmices". Estarei propondo que todos deveriam ser artistas? Sim, é isso que proponho: todo homem e mulher deve se tornar um artista... Para recuperar a sacralidade da vida! (Alma Welt)
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
Queria que meus versos ficassem para a posteridade. Desconfio mesmo que tenho alguma chance, a julgar pelos milhares de comentários gratos e aprovativos na rede. Eles me comovem, e quando vejo meus versos transcritos com reverência em outros blogs, me rejubilo até às lágrimas. Não, não foi em vão caminhar pela cochilha contando sílabas nos dedos e escrevendo em cadernetas, para depois passá-los a limpo no plano virtual. Cheguei a cair num córrego uma vez, de tão absorta ao caminhar escrevendo, e estou consciente do lado anedótico ou caricato deste episódio, até mesmo piegas. Mas o que posso fazer? Elegi meu cotidiano como tema dos meus versos e não fui rejeitada... devo estar no caminho certo. Meus sonhos, afinal, são os de todas as mulheres, talvez os de alguns homens sensíveis também... (entrevista com Alma Welt)
A adolescência é um período da vida de completa desorientação, parecido com a idiotia. Quase sempre somos tão desatinados na adolescência que é difícil acreditar que possamos sobreviver a ela, ultrapassá-la. Na verdade isso seria um milagre e é por isso que não a ultrapassamos: nós a perpetuamos. No que se refere ao emocional, permanecemos, quase todos, adolescentes o resto da vida. Felizes são os artistas, que estes permanecem crianças... (Alma Welt)
Nós, seres mortais, vivemos cercados de Infinito. Infinito é o Tempo, embora não o nosso... Infinitas são as estrelas, o universo e... curioso: as músicas que podemos compor sem nunca repetir uma melodia. Assim também os versos, os poemas. A nós foi dado lidar com o Infinito, sem fruí-lo como vida, sem experimentá-lo além de segundos inefáveis do êxtase de Amor. Talvez sejamos aprendizes do Eterno. Precisamos apenas aprender a nos sentir parte do Tempo. Ainda haveremos de viver sem medo, para sempre... (Alma Welt)
Se não pudermos abrir o coração e contar tudo para um outro ser humano, um único que seja, teremos passado como uma ficção, uma sombra ou uma máscara dissimuladora... pela vida. Quanto a mim, escancarei o coração para o mundo nos meus versos, não me falseei, não me poupei, não me resguardei mesmo ao custo do despudor e, por vezes, do patético... (Alma Welt)
De tempos em tempos paramos e nos perguntamos como será possível continuar... Viver é tão difícil quando não nos empenhamos em endurecer, mas somente em desenvolvermos a sensibilidade. Uma grande armadilha, que acabará por nos destruir... eis o que é a Poesia, a Arte, a própria alma. Tínhamos que ser duros, valentes e... até brutais, se isso nos fortalecesse as fibras do coração... (Alma Welt)
No ser humano tudo é ambíguo. Ao mesmo tempo em que queremos ser únicos, queremos ser iguais a todos. Queremos nos destacar e sermos tratados como iguais. Seguimos a moda e queremos ser originais. Somos sempre uma coisa e seu contrário. Queremos a festa e o sossego. Não admira que tenhamos sido expulsos do Jardim do Éden, onde certamente estávamos perturbando a harmonia... (Alma Welt)
Nunca pensei em mim como uma pessoa normal, nem nunca fui tratada como tal desde a infância. Tal fato produziu a singularidade da minha vida, de meu destino. Entretanto ainda muito jovem percebi que todos os destinos são singulares, e que todas as pessoas têm o direito de se considerarem únicas, príncipes e princesas de si mesmas. E que é isso que mantém o mundo girando, a humanidade se reproduzindo cheia de orgulho e esperança... (entrevista com Alma Welt)
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Eu nunca procurei me divertir... Antes procurei sempre me emocionar, me encantar e me encontrar com a beleza da vida e do ser humano. Para me enriquecer por dentro. Sim, para me sentir rica o suficiente para continuar querendo viver. Todo o mal do mundo vem da indigência interior, do imenso ressentimento que a miséria sempre traz, seja a de dentro ou a de fora. A verdadeira riquesa é generosa, quer compartir. Percebam que não falo nunca de dinheiro... (Alma Welt)
Sempre desconfiei da palavra "diversão". A arte verdadeira não é diversão, nem "entretenimento". As artes, todas, são formas de expressar nossa insatisfação, nossa perplexidade, nossa angústia e sobretudo nossa rebeldia diante do destino humano. "Mas... a beleza? " perguntarão." Para quê serve, então?" Ah! Essa é a suprema rebeldia, uma provocação, um arremedo da divindade em nós mesmos... (Alma Welt)
A maneira mais eficaz de expressarmos o ser humano em arte é não nos preocuparmos com isso. Se estivermos falando de nós mesmos com imensa sinceridade, às raias do patético, poderemos alcançar uma verdadeira poesia. Afinal quem mais realmente conhecemos, quem mais nos oferece sua face ao espelho todos os dias? Que dor maior de viver conhecemos? Que alegria se compara à nossa quando ela existe? (Alma Welt)
Estar continuamente buscando expressar o ser humano em suas certezas, dúvidas e angústias, na sua procura de sentido, de amor e da difícil felicidade, mas sobretudo na sua procura de individualidade... eis a razão de ser do artista, do poeta. Quando sentimos que o estamos conseguindo, tudo o mais passa para segundo plano. Não nos parece haver maior ambição ou meta possível para um ser humano, nem mesmo o Poder, porque já o temos na sua forma mais nobre... (Alma Welt
domingo, 18 de dezembro de 2011
A dor de não termos a nossa arte compreendida é das maiores que podemos sentir na vida, mesmo que essa incompreensão exista em relação a nós numa única pessoa que a manifeste. Creio que isso se deva ao fato de que, no fundo, a alma sonha com a unanimidade, com a universalidade. A ignorância de alguns não nos consola... (Alma Welt)
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
Quando um artista é tomado por inteiro pela Arte deverá ser capaz de expressar-se com beleza e eficácia por qualquer meio. Sempre reparei que os cineastas se expressam bem verbalmente. Isso já não acontece com os músicos, não sei porquê. Acredito que um pintor tem que ser capaz de escrever bem, também não me perguntem porquê. Dois casos que posso citar: Delacroix e Paul Klee. Ah!Também Salvador Dalí... a meu ver, o que melhor escreveu. Também Picasso escreveu três peças de teatro notáveis, embora predomine nelas a visualidade... (entrevista com Alma Welt)
Nossos melhores pensamentos, compartilhados voltam a nós enriquecidos pela subjetividade alheia. Sim, nossos leitores, se os temos, nos enriquecem, mesmo à distância, pois o pensador solitário perde a perspectiva de sua lucidez. Aliás toda solidão renitente faz isso, conduzindo à alienação ou à loucura... (Alma Welt)
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
A Arte, ao contrário da Ciência, não busca dar respostas. Ela se propõe somente a mostrar a beleza da vida humana em sua perplexidade diante da Natureza, em sua tragédia, em seu desamparo... às vezes nos seus engraçados disparates em busca do amor e da inefável e fugaz felicidade. Quando a Arte tenta dar respostas ela se torna piegas ou pontificante, ela deixa de ser Arte. (Alma Welt)
Observem que toda a História da vida do ser humano na Terra não tem sido senão um imenso esforço para superar a perplexidade de nossa ignorância sobre o mistério da Vida e da Morte. Um patético ou heróico esforço de buscar nexo, atribuir sentido à nossa vida. Em vão. No que tange às perguntas essenciais continuamos tão ignorantes como quando nos erguemos nos quartos traseiros... (Alma Welt)
Os cientistas descobriram que a crueldade no ser humano deriva de certa glândula reminiscente e primitiva no cérebro, que ainda temos em comum com os répteis. Aliás percebo em certas pessoas traços psicológicos reptilianos, embora eu não seja versada na psicologia de cobras e lagartos. Mas é facil, por exemplo, identificar lágrimas de crocodilo... (Alma Welt)
A essência do poder é a força. Se pelo voto delegamos poder, estamos dando o direito a um homem de exercer essa força adquirida. Isso fatalmente se voltará contra nós. Essa é a grande contradição da Democracia. Quando um homem se descobre forte ele se torna um monstro, pois essa é a natureza da força. (Alma Welt)
Conquanto não haja ainda um sistema melhor para adotarmos, a democracia revelou-se uma forma de eleger um rei ou ditador, frequentemente também corruptos. Não há nada mais perigoso do que delegarmos poderes a outros homens, sobre nós. É uma das muitas ingenuidades que cometemos na vida... (Alma Welt)
A imensa maioria das pessoas parece estar convencida de viemos ao mundo para consumir coisas. Para comprar e vender. Isso seria o mesmo que dizer que a razão da vida é o comércio. O estudo e as profissões serviriam unicamente a esse propósito. É isso que eu chamo de "alienação coletiva". Mas desconfio que se trate de algo mais grave: a esquizofrenia das massas, que levará à ruina da espécie humana e do próprio planeta. (Alma Welt)
O homem comum atual se tornou conivente com a banalização da vida através do culto profano do consumo e do comércio, portanto cúmplice da destruição acelerada do planeta. O pior é que isso é um processo irreversível e irremediável. É tarde demais. Nada mais podemos fazer para salvar a Terra do círculo luciférico do petróleo. Esperemos somente que ainda nos sejam dados mais 50 ou 100 anos, antes da hecatombe final. (Alma Welt)
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
Se cultivamos as memórias de nossa infância e as de nossa juventude, se sobretudo as honramos com o respeito ou humor que elas merecem, vivemos duplamente, já que tudo se realiza ou se condensa na mente, mesmo o nosso Presente. Pensando assim seremos capazes de contar uma estória cheia de sentido, acabada de acontecer. Afinal, o que é uma vida se não estórias? (Alma Welt)
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
A vida do mais comum dos seres humanos contém todos os signos e arquétipos da vida dos heróis e dos gênios, a partir do próprio fato de que nasceu, teve uma infância boa ou má, cresceu, lutou para sobreviver, e morreu tendo realizado ou não os seus sonhos. Por isso é que se diz que um sujeito teve uma morte trágica se morreu cedo ou foi assassinado, mesmo que tenha sido dentro de um ônibus de subúrbio... (Alma Welt).
Desconfio que a nossa vida de seres humanos tenha o mesmo significado da vida de uma planta ou animal qualquer, de uma lula, uma flor ou uma efemérida que dura só um dia. Nossa mente supostamente racional, nossas habilidades e até nossa tecnologia não são levadas em conta pela Natureza, e por isso morremos como todos outros seres. Já que podemos conceber um Tempo infinito, ainda não está claro o porquê desse nascer e morrer sem fim, que ocorre até com as estrelas e as galáxias. (Alma Welt)
Os americanos (e nós também) começamos a imaginar, em termos de ficção ou não, que no futuro as máquinas terão vida própria e herdarão o mundo, dominando os homens. Entretanto não percebemos que já somos totalmente dominados há séculos por uma criação nossa: o dinheiro. Sim, o ser humano engendra sua própria escravidão, pois a liberdade é o que realmente o apavora. (Alma Welt)
Temo que apesar de todas as denúncias dos esclarecidos, os homens não cessarão de devastar a Terra. Isso acontece por uma razão incontornável: está no inconsciente coletivo da humanidade como uma revanche contra a Natureza, já que esta lhe coube como punição, parindo em dor e suando o pão. O homem, em sua revolta contra o anátema de Deus, acalenta a idéia de transformar a Terra num deserto e partir para outros planetas. No âmago do seu ser o homem não considera este planeta a sua terra. Essa é a tragédia, esperemos pelo pior... (Alma Welt)
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
Nunca cometi um crime que minha consciência acusasse como tal. Entretanto fui severamente punida em minha infância mais pela minha curiosidade do que pelo meu desejo. Minha rebeldia, daí por diante me fez mais curiosa e transgressora... Mas, pensando bem, não é o que aconteceu com toda a Humanidade? (Alma Welt)
O território da alma é o sono. Nele ela se revela em sua natureza de sonho, se sente livre da lógica limitante de nossa vigília cerceada, dominada. Não tivéssemos o sono e a alma se rebelaria, impelindo-nos para os abismos reais, para os vôos desesperados das janelas, das vertigens, dos hospícios... (Alma Welt)
Quando eu era guria, um senhor que eu não conhecia visitou-nos, e vendo que meu pai era um apaixonado por música clássica, a certa altura declarou: "Não gosto de Beethoven, toda aquela marcialidade... Prefiro Debussy". E meu pai, de pronto respondeu: " Amigo, não gostares de Beethoven não fica mal pro Beethoven, só fica mal pra ti..." (Alma Welt)
sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
"A criança é o pai do homem", dizia Freud. Todas as coisas fundamentais de minha vida aconteceram na infância. Nela eu amei de maneira absoluta. Nela, a sagrada Infância, fui expulsa do Paraíso e me tornei poeta por rebeldia e fidelidade à pureza e inocência do olhar. Nela eu adquiri minha ironia por um ligeiro travo de amargura que restou mas que transformei em humor..." (Alma Welt)
Se a tua vida está chata, é sempre culpa tua. Não tens capacidade de aproveitar a maravilha que é fruir a arte do Cinema, da Música, dos Shows, da Pintura, do Desenho, da Gravura, da Escultura, da Arquitetura, do Teatro, da Literatura, da Poesia, da Dança, do Ballet Clássico, da Animação 3D, do Folklore, da Culinária, do Vinho, etc... Se tens tédio, na verdade estás doente." (Alma Welt)
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